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Mostrando postagens de maio, 2004

O amor acaba

Não obstante toda insalubridade, o coração sobrevive à miséria. Anda pelos becos, afugentado, à procura de abrigo. Chega a cantar "Singing in the rain" sem guarda-chuva, absurdo para o cinema clássico. Aos prantos, imita Charles Chaplin a proteger a vida do bebê indefeso. O ódio torna-se refém da ternura ao perceber que, mesmo desamparado, pode estar melhor acompanhado consigo mesmo. Sente frio. O Sangue, outrora vermelho-sangue, refrigera-se ao azul-escuro. Seus dezenove centímetros de altura não passam agora de quinze de largura. Manchas púrpuras rodeiam suas extremidades. Foi então que percebe o perigo. Corre desesperadamente. Pula duas ou três cercas, deita-se. O silêncio é interrompido, subitamente. Gritos de escárnio. O coração, afugentado, recomeça sua fuga desnorteada. Pula no lago recém congelado. Aquela noite de outono trouxera os píncaros da saudade. Imerge! Nessa hora o coração já está gelado, intransponível. Sente calafrios, medos, sensações de indiferença. De...

Lágrimas de sangue

Durante muito tempo temos a sensação de estarmos protegidos das coisas do mundo. Quando crianças, temos sempre aquele amor fraterno de nossos pais. Jovens e rebeldes, vemos nas novas descobertas a proteção necessária para a sobrevivência social. A partir do momento em que percebemos a fragilidade de nossas convicções e conquistas, agarramo-nos em uma consciência intelectual única e individual, com padrões moralmente definidos, para continuarmos a proteção e à proteção do mundo. Desvinculados dessa segurança retilínea defendida pela cultura ocidental, tudo que apregoa-se evapora ao descaso e à falta de sensibilidade alheia. O resultado é preemente e avassalador, dentro daquele prognóstico ético(1) de vida: se não sofrer uma aborto, o feto garante sua possibilidade de chorar, ao menos, pois ainda corre o risco de ser jogado em uma lata de lixo qualquer; e muito embora sua mãe resista à pressão sócio-econômica-cultural de prezar pela vida da criança e por sua sanidade mental, não há expe...