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No lugar comum

No lugar comum as pessoas
voltam pra casa, os carros
pegam a estrada, as crianças
brincam na calçada.
O vento sopra diferente,
no lugar comum.
Tem dia que não é quente,
na madrugada há pouca gente,
as paredes das casas são alvas.
O lugar comum é onde
tem pássaro e mar todo dia,
o relógio bate ao meio-dia,
a moça negra faz café,
numa espécie de mimetismo.
As pessoas têm duas pernas
e podem chegar aonde querem.
Aqui não se chega acolá,
já no lugar comum
sempre lugares para ir,
belas histórias para ouvir,
coisas novas para ver.
As pessoas se percebem,
entretidas umas nas outras
:algo de si nelas mesmas.
Porque no lugar comum
tem muita coisa incomum.
Tem papai noel e televisão,
tem feriados, dias da semana
(qual dia não seria?), e tem uma
coisa que incomoda bastante,
que pela falta de nome as
pessoas chamam de coração.
E quando falam isso não me
parece mais o lugar comum.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Autopsicografia, Fernando Pessoa

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