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Dicotomias Dois verbos: Chorar e Sorrir. Em resposta à concórdia o Riso surge filantrópico; em resposta à discórdia o Choro põe-se egoísta. Com coração, sem coração; coração bom e coração mau, de amar ou não, de odiar ou não. E o mundo arrefece em dicotomias... Rodrigo Sluminsky +++ Etecetera A Casa de Rubem Alves
Paris? Texas?! Somos magros, somos feios, somos negros. Somos brancas, somos escravas, somos mineiros. Também somos daqueles paulistas bandeirantes, triunfantes nessas florestas tropicais, que estão perecendo nos desertos imemoriais do Império Americano... Nós não somos bacanas, não somos "hermanos"; nós somos ilegais! Nossas mulheres fazem fila por subempregos, nossos filhos multiplicados criam confusões dos diabos com desejos e miscigenações. As raças puras dos velhos continentes que se cuidem com muros de vergonha, murros sem vergonha e passaportes de sangue azul. Estamos sempre em trânsito, procurando um lugar onde cair duros. E essas paisagens são bonitas de se ver em tecnicolor, mas letais nas realidades banais de nossos calores humanos! O fato é que vagamos em vagões de gado, à espera de uma esmola, um trocado, um salário ou uma vaga em Auschwitz. Escondidos nos fundos falsos dos contêineres subsidiados, somos sufocados por esses pós da China que se acumulam...
Dias atrás, ouviu-se uma história de um jovem que se suicidara em uma cidadezinha nos Andes chamada Cerro de Pasco. Segundo relatos, tal garoto chegara de longe, muito longe, ainda que não se soubesse donde, e naquela fria noite de inverno fora se aquecer em um dos estabelecimentos apropriados da cidade. Entrara no bar com passos de forasteiro, mas com um olhar aquém da realidade outrora imaginada. Sentara numa das únicas três banquetas disponíveis. Ao seu lado, o fidalgo não espera segundos para perguntar-lhe: - O garoto tem nome? - Tive, mas perdi-o com o tempo. Aliás, tinha nome e sobrenome, palavras e consciência. Tive rumo, flores e propósito. Hoje, tenho a mim, e é o que me basta! - Pode até ser verdade que não traz consigo a aflição pretérita, mas este lugar não lhe espera e não lhe acolhe! Sugiro que desbanque seus culhões e encontre um lugar seguro para sua melancolia. - Cá estou, cá não quis estar. Simplesmente acompanhei minhas pernas! - E sugiro também que não an...
Por quê? Por que nascemos para amar, se vamos morrer? Por que morrer, se amamos? Por que falta sentido ao sentido de viver, amar, morrer? Carlos Drummond de Andrade +++ Etecetera Biografia Antologia Poética, Carlos Drummond de Andrade Consolo na Praia , poema de Carlos Drummond de Andrade (na voz de Carlos Drummond de Andrade)
Devaneios Era impossível falar de amor naquele canto do coração! E quanto mais se pensava em desespero e temores, saltavam à boca as preciosas falácias apriorísticas... A Bíblia diz que é ressureição; os médicos falam em técnica; bastante gente acha que é mandinga. E não importa o tamanho do marcapasso se acabou a pilha e já não se encontram mais pilhas... Está claro que tudo isso sobrecarrega em muito os outros órgãos! O pulmão está gelado, a boca seca, o fígado dói... O pé não tem mais solado, pois é preciso fugir, procurar o bulbo. Desequilibrado, busca o equilíbrio, com os pés descalços, sem solado. Sente ainda que tem sentido alguns sentidos. Falsos devaneios de domingos à noite... A engrenagem está mais próxima que seus olhos míopes vêem. Muita gente precisa deste velho coração, de sangue novo. Tem gente que sente o que o coração de sangue novo sente! E choram porque não conseguem... Com razão, absolutamente! É muito estranho sentir o que o outro está sentindo, e não saber que o ...

O amor acaba

Não obstante toda insalubridade, o coração sobrevive à miséria. Anda pelos becos, afugentado, à procura de abrigo. Chega a cantar "Singing in the rain" sem guarda-chuva, absurdo para o cinema clássico. Aos prantos, imita Charles Chaplin a proteger a vida do bebê indefeso. O ódio torna-se refém da ternura ao perceber que, mesmo desamparado, pode estar melhor acompanhado consigo mesmo. Sente frio. O Sangue, outrora vermelho-sangue, refrigera-se ao azul-escuro. Seus dezenove centímetros de altura não passam agora de quinze de largura. Manchas púrpuras rodeiam suas extremidades. Foi então que percebe o perigo. Corre desesperadamente. Pula duas ou três cercas, deita-se. O silêncio é interrompido, subitamente. Gritos de escárnio. O coração, afugentado, recomeça sua fuga desnorteada. Pula no lago recém congelado. Aquela noite de outono trouxera os píncaros da saudade. Imerge! Nessa hora o coração já está gelado, intransponível. Sente calafrios, medos, sensações de indiferença. De...

Lágrimas de sangue

Durante muito tempo temos a sensação de estarmos protegidos das coisas do mundo. Quando crianças, temos sempre aquele amor fraterno de nossos pais. Jovens e rebeldes, vemos nas novas descobertas a proteção necessária para a sobrevivência social. A partir do momento em que percebemos a fragilidade de nossas convicções e conquistas, agarramo-nos em uma consciência intelectual única e individual, com padrões moralmente definidos, para continuarmos a proteção e à proteção do mundo. Desvinculados dessa segurança retilínea defendida pela cultura ocidental, tudo que apregoa-se evapora ao descaso e à falta de sensibilidade alheia. O resultado é preemente e avassalador, dentro daquele prognóstico ético(1) de vida: se não sofrer uma aborto, o feto garante sua possibilidade de chorar, ao menos, pois ainda corre o risco de ser jogado em uma lata de lixo qualquer; e muito embora sua mãe resista à pressão sócio-econômica-cultural de prezar pela vida da criança e por sua sanidade mental, não há expe...