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Crônica do coração

Zé Barnabé era um cara legal, rodeado de amigos e tal. Vivia sempre alegre. Adorava ouvir música, caminhar à Beira-mar, praticar esportes. Também estudava com afinco. Gostava mesmo de saber o que estava fazendo; era um homem que ficava mal em estar por fora dos assuntos do momento. Lia jornal. Todos os dias! Política era sua utopia! Mas o que interessava mesmo era Ritinha. Política era o passatempo, assim como o vinho e o uísque. Ritinha era sua paixão! Faria tudo por ela. O problema é que Zé Barnabé era meio desajeitado. Até era sim meio galã, com ar esnobe e prepotente. Mas ainda assim ele não levava jeito para cavalheiro. Pior mesmo, levava jeito era pra cachaçeiro! Ah...isso era a especialidade. Botequim de quinta, boemia ferrada, cana das boas. Ainda bem que ele era azarado, porque senão até na jogatina o filho-da-puta se dava bem.

- Diga, meu filho, o que acontece?

- Eu sou muito azarado.

- Não seja presunçoso. Tem uma família que te ama, amigos que te querem bem, muita coisa.

- Tinha, tinha.

- Como aconteceu?

- Estava com muitos amigos, conversando, bebendo. Sabe esse negócio de bar e tal. O negócio é prazeroso. Mas o chão desaba...

- Ahhh...entendo! As coisas do coração, não é?

- Pois é!

- Qual era o nome?

- Ritinha era seu nome.

- Isto não é explicável!

- Até que é, mas não consigo. Quando acontece a ira é superior a qualquer sentimento. Incontrolável!

- Pulaste a cerca?

- Pois é! Sem pudor ou escrúpulos! Era a raiva, acho. Mas agora tanto faz!

- Morreste, então?

- É! Pela primeira vez!

- Continue.

- Bom, depois disso achei que não mais conseguiria seguir meus objetivos. Naquele momento desabou tudo!

- Foi bom?

- Descobri mais tarde que não adiantava. Morri pela segunda vez!

- Entendo! Que fizeste, então?

- Lembrei-me de um amigo: quando perderes uma base na vida, recorra às outras. Ainda possuía minha família, meus amigos e meu trabalho.

- Mas não o principal!

- É! Não o que mais queria, mas isso não significa que o resto seja menos importante. Tudo ajudou, mas passei por uns péssimos bocados.

- Melhorou?

- Achei que estivesse melhorando. Mas começei a me apoiar em coisas fúteis, tais como a vida noturna, baladas, bebida. Boemia de verdade.

- Pelo menos esqueceu!

- Sim, mas acabei morrendo! Pela terceira vez!

- De quê?

- Cirrose! Tudo por causa de um amigo que conheci. Ele não me fazia bem.

- Que amigo?

- O Wall Street! Eu adorava ele, mas não me fazia bem. Até nem me sentia mal por estar com ele, todos os dias. Mas fiquei muito sentido quando ele me passou essa rasteira. Claro que não me esqueci dos outros amigos. Também andava com a cevada, o fermentado, o destilado. Mas o malte era meu companheiro inseparável, até que...

- Até que o quê?

- Até que resolvi me reciclar! Parei para pensar em como eu era responsável e minha vida era organizada. Acabei me fortaleçendo com a idéia de que nada é por acaso e que mesmo um coração valente pode sofrer desilusões incompreenssíveis. Na verdade acabei me acostumando com a dor.

- Que bom que você aprendeu a lidar como os problemas. Pelo menos não sofreu mais desilusões!

- Mais ou menos! As pessoas não se contentam em pisar uma nas outras. Preferem esmagar até que saia quase todo o sangue. A vaidade é uma merda mesmo. Nitsche dizia isso. Ele comparava a vaidade à pele dos seres humanos. Os sentimentos podres eram mascarados pela vaidade tal como a pele escondia a fealdade dos nossos órgãos internos.

- O que aconteceu desta vez?

- Acabei morrendo, pela quarta vez!

- Hum...

- Mas não desisti não! Levantei a cabeça e toquei o barco pra frente. Se bem que a esta altura eu já não tinha mais emprego, não queria estudar, não sabia mais com quem falar e muito menos que rumo tomar.

- Deixe-me adivinhar...amigos?

- Também! Meus amigos e minha família me apoiaram nesta nova fase. Eu não entendia direito o que estava acontecendo, por isso mesmo achei melhor fazer o que parecia mais adequado.

- Mas você não fez nada para evitar tudo isso?

- Até tentei, sabe. Até tentei. Mas parece que não surtiu efeito nenhum, embora eu nunca acreditaria nisso. Das poucas vezes que agi com impulso me arrependo somente de não poder me expressar com os olhos. Infelizmente hei de concordar com Nitsche, mais uma vez.

- Mas desta vez você se livrou desta arruaça, ora pois!

- Superficialmente sim! Acabei criando uma certa barreira contra maus fluídos que me deixou inerte à vaidade alheia.

- Tudo bem então, mas como você veio parar aqui?

- Bom, São Pedro, alguns amigos vieram me visitar e fomos juntos a um show lá na minha cidade.

- Tá, e daí?

- Bom, estávamos atrasados para o evento. Todos meus amigos e eu, bebendo cerveja e jogando conversa fora, até que resolvemos entrar no dito cujo.

- E...

- E então que para cortar caminho resolvemos pular uma cerca.

- De novo?

- Pois é! Acabei caindo de mau jeito e quebrei o pé!

- Mas como você veio parar aqui em cima?

- Você se lembra que eu estava com pouco sangue, por causa daquele negócio de vaidade e tal?

- Sim, me lembro!

- Hemorragia externa. Acabei morrendo. Pela quinta vez!

- Não acredito! Agora pelo menos você sossega o facho aqui no céu.

- Felizmente não, meu caro. Ontem mesmo me disseram que eu era um gato e que nada poderia me segurar. E como os gatos têm sete vidas, acho que descerei mais uma vez para aproveitar minhas outras duas.

- É, Zé Barnabé, você é mesmo azarado! Eu só espero não vê-lo de novo tão cedo!

- Se Deus quiser, São Pedro! Se Deus quiser!


Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

www.releituras.com

Samba da Bêncão, Vinícius de Moraes

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