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Lisboa Revisited (1926)

Nada me prende a nada. Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo. Anseio com uma angústia de fome de carne O que não sei que seja - Definidamente pelo indefinido... Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto De quem dorme irrequieto, metade a sonhar. Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. Não há na travessa achada o número da porta que me deram. Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. Até a vida só desejada me farta - até essa vida... Compreendo a intervalos desconexos; Escrevo por lapsos de cansaço; E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago; ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso. Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... E, no ...

Efêmera sanidade

Chore, pequena, mas não diga a eles que o tempo passou e nem interveio. Seja complacente consigo mesma e não os deixe saber o outrora incompreensível. Se preciso for feche o olhos e reze, se necessário, mas não os permita sentir em hipótese alguma sua insanidade e seus gritos de dor! Rodrigo Sluminsky +++ Etecetera Bolero , Ravel

Para sempre Solidão

Como te não poderia eu Pensar, Amar, Idolatrar, igual quando tu dizias que eras ainda subliminar? Naqueles tempos de profunda auto-compreensão entendia, claramente, que não tinha par nisso tudo, como se o mundo girasse, e sem perceber - ou quando percebia :digeria, chorando - pensando não saber o que pensava e que realmente girava sem entender nadinha do que sentias. E que razão terias tu que não mais pensas: Amas, e que nada tens a idolatrar? Como te não poderia dizer eu que o mundo gira e continuará girando e girando e girando? Para a terra do Seu-Nunca de coração pobre e andar esvaziado... Mas tu, celeste, continuarás na doçura de girar os movimentos lunares e de ser algo singular. Do quê para quem? Pés que não alcançam o chão, que levitam a alma em sinfonia puritana. Deixar-me-ias tu o vento levar? pr'onde o simpósio dos poetas fascinados clama pela minha ausência; pr'onde me chamam "Vinde, sem-nome!" ó espírito libertador dos deuses misericordiar-me-ias tu de pal...

Simplesmente

Se me perguntam o que quero não sei dizê-lo, mas, constantemente, fujo do que sei que não quero. Taciturno e perspicaz, entre beijos e antolhos, deusas e prostitutas, metáforas e aliterações, fantasio pr'onde nem sei... E é difícil explicar o quanto isso me basta! Sou Tudo? Sou Nada? Para os que me conhecem, posso ser branco - quando claro - e negro; posso persuadir, amar, sorrir... Posso matar, se irado; posso chorar, se triste. Para eles, posso ser aquilo que sempre sonharam, ou que sempre repeliram. Posso beber, fumar, e ainda ser Tudo, se para eles sou o que lhes resta! Para os que não me conhecem, posso ser branco, negro; posso amar e ser amado, até idolatrado! Ser morto e por isso chorado Posso persuadir, viver, sumir... Posso ser, ou não. Para estes, posso ser aquilo que sempre sonharam, ou que sempre repeliram. Posso beber, fumar, e ainda ser Nada, se para eles sou o que lhes resta! Assim, para os que me sabem e assim o vêem, sou o que me apresento, o que me mostro ser, de ...
Stordito Embaralhado Disse que era o que não é, faz o que não diz e conta o que não fez. Manda onde não pode, fala quando não deve, teme quando encara. Xinga quando é amor, toma quando é sólido e beija sem sabor. Limpa a bunda com o editorial, faz mimetismo de HQ e é viciado em horóscopo. Escreve o que vem na telha, cai num mar de lama e usa poesia para a casa cobrir. Cheira samambaias, joga sementes de arroz para o alto e come pétalas de rosa. Viaja às segundas-feiras e paga a viagem com voador. Roda a bolsinha, rói as unhas do pé e entorta o aro da bicicleta. Bebe álcool de cozinha, cheira baseado e cocaína para o bolo crescer. Fala palavrões, come jerenhoque e serra pinheiros-do-Paraná. Nada borboleta, veste seda e constrói gaiolas. Ri quando se chora, canta quando silencia, breca quando a regra é andar. Caga e anda, anda e caga, urina, e vomita na geladeira. Morre de frio, vive de favor e geme de medo. Dorme de manhã, escreve poesias à tarde e trabalha pela madrugada. Desenvolve a...
Revelações Sou um Amor apaixonado, de andar esvaziado, mente, e alucinado ressentindo a vontade de voar. Penso ser dono do mundo, tenho comportamento imundo, danço feito moribundo, sonhando poder assim ficar. Tenho vontades passageiras, onde perdem-se estribeiras e quebram-se cadeiras podendo nunca mais restar. Tento superar meu limite de poeta com labirintite, hepatite alcoólica, miocardite, ouvindo que há o que curar. Gosto mesmo de lágrima depravada, solitária, arruinada, ciente que fracassada, esperando alguém a perdoar. Prefiro a vida ordinária, de redundância hilária, ou de anônimo da Candelária, porém sem titubear. Sinto também a promiscuidade no sangue, de pudor ignorante e gênio arrogante, acreditando não mais se salvar. Posso ainda ser um marinheiro ou até um cancioneiro, com ou sem dinheiro, deixando a vida me guiar. Perdôo-me ser metafísico, então, daqueles que não vive em tabernáculo ou que não possui qualquer outro vínculo, implorando à alma do mesmo modo ressuscitar! Rod...
Marcha fúnebre Tristeza sem fim tira a mão de mim não percebe que nós estamos mortos há muito tempo Gelado demais depois de findos os carnavais e ainda assim brincam com nosso corpo Chuva d'água molhada que vem descendo a estrada corre por todos os lados fazendo chuá-chuá Cama do lençol vermelho não tem reflexo no espelho aquele que um dia foi e não mais pode acordar Rodrigo Sluminsky +++ Etecetera Manhã de Carnaval, Luiz Bonfá/Antônio Maria Noite na Taverna, Álvares de Azevedo