quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

No vazio do oceano


No vazio do oceano
Surge o desejo

Uma felicidade verdadeira
Um loucura possível
Um voo mais surreal
Um mundo belo e inacabado

Destemidos que nascemos
No mar do inconformismo

Coroados
Por amor e paixão
Sofridos
Por temor e inação

Castrados todos os dias, nós somos
Rendidos e Substraídos

Nas ruas, nossa liberdade
Não tem preço nossa voz

E para pensar, conceitos
E para falar, silêncio

Viver exige mais
- muito de si
Querem mais deles
- do que de si

Uma postura correta
Uma religião herdada
Uma sexualidade ereta
Uma conduta ilibada

No vazio do oceano
Ressurge o desejo

E queremos todos os mares do mundo
Que desapareceram, Que estão
E queremos, Que não

Uma felicidade verdadeira
Um loucura possível
Um voo mais surreal
Um mundo belo e inacabado

Rodrigo Sluminsky

sábado, 27 de dezembro de 2014

Liberte-se

Deixe que o mundo
Atropele o teu
Seja
Um ator, um amor
Sem pudor
E aguente a dor
Porque o mundo
Vai te atropelar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Meu Pranto Rolou, Raul Sampaio, Benil e Izo Santos 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

...

Meu palco
Uma estrada
Desbravada

Meu texto
Uma repetição

Por quê, então
O contexto

do que penso
     do que penso
          do que penso

Nunca acaba?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Why not?
Jónsi

The Quatsi Trilogy

Director: Godfrey Reggio
http://www.koyaanisqatsi.com

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Sabedoria aos 30

pensar que o corpo
entende, engana
completamente

as regras são a mente
o corpo, não desmente
deliberadamente

imaginar um corpo
consciente, enlouqueça
aleatoriamente

e perpetua, ardente
foco na mente
eternamente


Rodrigo Sluminsky 



+++ Etecetera

Dreamin' Man, Neil Young



quinta-feira, 25 de abril de 2013

Vão

Acondicionados
Situação em que se encontram
Permissivos, lenientes, vis
Compartilhamento
Desprocurados pelos breu
Ontem foi mais longe
Intocáveis, puros.

Rodrigo Sluminsky


sábado, 25 de agosto de 2012

A Reflexão

A Reflexão 
Nos leva à Introdução 
De um Pensamento 
Ainda não Realizado. 

Rodrigo Sluminsky 


 +++ Etecetera 

Intouchables (2011)

quinta-feira, 8 de março de 2012

Anteontem

Depois de ontem
Súbito anoiteceu
Meu anteontem

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Pelo Amor de Amar, Ellen de Lima

La Piel que Habito (2011)
Diretor: Pedro Almodóvar

sexta-feira, 2 de março de 2012

Abalroamento

Uma noite agradável
De um dia deplorável
Tudo aconteceu.

A rotina que tanto seguia
Depois desse dia
Não mais seguiu.

A notícia que assola a cidade
Depois da verdade
Não mais preocupou.

E assim sucessivamente.

O dia levanta mais leve
O trânsito já não atrapalha
O papo perdeu os ouvidos
A ordem não tem coerção

Um momento abalroado
De simplicidade
Onde pássaros cantam
E margaridas existem.

Aqui não se vende liberdade
Aqui se alistam sonhadores.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Hugo (2011)
Diretor: Martin Scorsese

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Nocturne

Aos que a noite persegue o dia
Sejam nós mesmos algo de luz
E não deixem que a escuridão
Nos circunscreva um amanhecer
Ou nos acometa nesta fantasia.
E ainda que a percebam tardia
Não sejam o mal que nos induz
Sem antes arriscar compreender
A vivacidade de uma nova paixão
E o inebriar de uma bela poesia.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Chopin, Nocturne Op. 48 C Minor

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Vivacidade

A ansiedade tem seus males
Todo dia, gente estúpida
Pessoal com PhD pra estorvo

Onde ficam as sementes?

Muita coisa prestes ao fato
Um ser humano ousado
Um farroupilha destoado

Pessoal resolveu descansar
Se ainda soubesse cantar
Alegrar nossos dias tristes

O embate será contra o tempo.

Ficarei acordado, procurando
Preciso de gente boa comigo
Ainda nessa primeira batalha.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Blowin' in the Wind, Bob Dylan

domingo, 23 de outubro de 2011

Enleio

De novo sobre a vida
Um grande beijo
Um enleio
Que eu gosto
Eu ontem disse
Eu hoje digo
Palavras soltas
Um pedaço
Teu espaço
Meu coração voa.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Blue moon, Billie Holiday

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sol e Mar

Estou aqui
de estar aí
não vou parar
vou por ali
tentar te achar
vou ver o mar
sentir o sol
em me perdi
não foi por mal
agora eu vi
estou quase ali
você é mar
eu sou teu sol.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Magrelinha, Caetano Veloso

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Asco

Um pouco de asco
Um casco
Tampouco

Rodrigo Sluminsky

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Sign

If you see a sign
Do not hesitate
It might be real

Rodrigo Sluminsky

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Escolhas

Nem sempre
Você escolhe.
Às vezes você encolhe.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

...

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O Tempo (e as Pessoas)

Hoje é dia
Em que se percebem
Em que se avaliam
o quotidiano
a nossa vida

Onde somos protagonistas

existe um tempo
não tão longínquo assim
onde o sol reluz igual
onde o mar termina
quando a hora tem tempo

e como tudo aquilo existia
todos nós - reservadamente
contemplávamos, ingênuos
O tempo.

Os que falaram antes
Sobre o tempo?
Foram eles tão cruéis
Quanto o tempo?

E quanto à sinopse do fato?

Um dia no tempo
- que houve
se perceberam
se avaliaram

o futuro não tinha papo
o passado esvaiu
as pessoas pintavam cruas
a natureza era mais bela
etc. etc. etc.

Tudo num só tempo
que nunca mais aconteceu
que nunca mais acontecerá
que nunca aconteceu

Hoje é dia
Em que se percebem
Em que se avaliam
o quotidiano
a nossa vida.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

L'illusionniste (França, 2010)
Direção: Sylvain Chomet
Roteiro original: Jacques Tati

domingo, 24 de abril de 2011

Vai Passar, Vai Passar

O sol levanta cedo
Não tem o que falar
O dia nasce lindo
Vem o sol nos alegrar

Vai Passar, Vai Passar
Essa alegria de viver
É uma desculpa
Pra gente comemorar

Todo dia fica claro
Vai gente ver o sol
Cheio de trabalho
Saudades do anzol

Vai Passar, Vai Passar
Essa alegria de cantar
É uma desculpa
Pra gente se lembrar

Na semana todo dia
Muita gente atrapalha
A gente não precisa
Dessa gente na batalha

Vai Passar, Vai Passar
Essa alegria de sofrer
É uma desculpa
Para não arrefecer

Vem a noite, fim do dia
Muita coisa pra fazer
Só quero ver a lua
Sob o céu resplandecer

Vai Passar, Vai Passar
Essa alegria de amar
É uma desculpa
Para não desanimar

Vem semana, dia, ano
Já se perde pra falar
Na vida não me engano
Nem dá tempo de contar

Vai Passar, Vai Passar
Essa alegria de conhecer
É uma desculpa
Para desaparecer

Quando vê, acaba tudo
Toma o tempo com a dor
Se no sol investe a vida
No seu lugar terá amor

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Sinfonia n. 9, em Ré Menor, Op. 125, Ludwig Van Beethoven

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Enleio

A comiseração anuncio o tato.
Não é necessário muito esforço
para dizer ou desfalecer algo
O que salienta a alma, dirá
é manter-se acreditado no vão.
Todos vocês sabemos da composição
pode ser somente um pedaço de si
Certo que não acaba no vazio do sonho.
E o que pensar e agir nesse meio
se o que lhes interessa será sempre
a confusão do pensamento, um vício.
Perpetuamo-nos cientes do enleio
no qual a noss'alma se coloca
Um espasmo solícito
Uma tristeza adequada
E nos quedamos insolúveis
Nessa felicidade convencida.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Solitude, Billie Holiday

http://vimeo.com/1410794

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Às vezes

Às vezes basta
imaginação
às vezes não.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Coleção Grandes Óperas

sexta-feira, 25 de março de 2011

Dúvida

Quem sabe a noite
não parou
Quem sabe o dia
não mudou

Imponderável.

Se o que lhe resta
se acabou

agora a Era
desabrocha
como a flor

com tempo incerto.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

Primavera, Verão, Outono, Inverno e... Primavera.
Coréia do Sul (2003)
Diretor: Ki-du Kim

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Exausto

O povo anda trôpego pelas vielas
Com máquinas e fardos nas costas
Pagos à prestação, emprestados
Dos manda-chuva da estação.

Os amigos parecem que esquecem
Que nem do folguedo ou da orgia
Provém o carinho da amizade, mas
Dos pedestais da cumplicidade.

E a família vive a rodear o problema
Compra sorrisos e cumprimentos
Em dias e finais de semana, ausente
Do alicerce mais íntimo das pessoas.

Têm também os outros, de cor e salto
No trabalho e na estação, na rádio
Gente que acorda depois e dorme mais
Que se esquece do dever e do direito.

Os malandros não se cansam
Tencionam, Pressionam, Ovacionam
São os bonifrates de marca maior.

Os amigos, delambidos por influência
TV, Rádio, Papo, Palanque, Digital
O diário nasceu mofado de vergonha.

A família, com seus preceitos e genealogia
Remonta a uma estirpe que não existe
E se existe, já morreu a cada nascimento.

Infamante!

Pode não ter prudência, mas procedência
Pode não ter pudor e nexo, quer sexo
Pode não ter honradez, mas dinheiro.

E vos chamam de plebe, meu Povo
De refugo da sociedade, populacho
Maldizem vosso trabalho, e estrábicos
Não vêem e maltratam vossas crianças.

Esses transviados da retidão, não serão.
São esses desventurados que maculam
Todo sentimento ulterior de felicidade.
É dia-a-dia, comunicação enviesada
Sem sentido e sem verdade, um ópio.
Às vezes é família e amigos. E nós mesmos.

E despertamos exaustos dos pesadelos
E alimentamos indigestos a fantasia
E caminhamos dissimulados pelas ruas
E percebemos enganados os detalhes
E pressentimos a enfastia das pessoas
E tememos o medo dos desafortunados
E enclausuramos despercebidos as crianças
E aniquilamos diuturnamente os sonhos
E choramos nossas lágrimas de festim
E seguimos acreditados nessa mentira

E morremos, enfim
Sem nascer.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Hino Nacional do BRASIL
Letra: Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927)
Música: Francisco Manuel da Silva (1795-1865)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O trôpego da concórdia.

Oxalá, Ser e não pender,
essa consideração íntima
uma verdade repreendida
Na dura vivência de ser.


O desvelo embebedado
pelas engajadas arengas
carentes de contexto.

A necessidade premente
de substabelecer aos céus
O tempo que há-de vir.

O trôpego da concórdia.

Tem o capricho amador
Meu senhor,
Essa inquietude rebelde.

No afã da insensibilidade
Não somos.
Esquecemo-nos, privados.


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Inútil Paisagem, Tom Jobim

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Esvaecido

Passa o passo
Sustenta, de lado
Explode na dor
Suporta, sem flor
Um dia, quem sabe
Esquece a verdade
E foge, algures
Sem nem pudores.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ne Me Quittes Pas, Maria Gadu

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lealdade

O sentimento volta à tona
Como quem sabe
Que nunca o deixou.
De lado viu-se tortuoso
O caminho do salto.
Não é sempre que persiste
Um balançar enviesado.

Estar é ser vivo no fato,
Caminhar com lealdade.
Acata-se o mundanismo,
Contém o arquejo e ama.
Resta insalubre e vil
Aquele que não está.
Somos todos humanos,
O casco vaza nos flancos.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Dream Machine, Mark Farina

terça-feira, 12 de maio de 2009

V

Um último suspiro

Gente delicada
perde pela força

Rodrigo Sluminsky

VI

Se o ditado muda
Muda tudo.
Da forma de verbar
Ao delírio do verbo
Uma letra dói
E um agrupado?
Frenesim
Medo
Nostalgia
Espanto
Amor
Uma só palavra
É samba de pincel.

Rodrigo Sluminsky

III

Retorno às
particularidades

Eu não volto
É uma volta!

Um dia ainda acontece
sabe-se lá, no vôo
ou mesmo na queda

O elogio profícuo
Ou a causa torpe
Não apetecem

Tem os meros
Tem o oblíquo

Gente que se preze
não titubeia no pesar.

Rodrigo Sluminsky

II

telefone sem fio
estribeiras ao ar
são laços perdidos
lançam ao mar
um ar de dúvida
pena que o ar
e o mar, ao sul
não eram nela
uma só felicidade.

Rodrigo Sluminsky

I

Os passos me explicam

todo dia
eu sou.

Ser Correto
Ser Humano
Ser Digno
Ser Leal

nunca
eu não sou.

Rodrigo Sluminsky

domingo, 10 de maio de 2009

Mãe

A ti, uma homenagem póstuma.
Nossa morte anuncia o vácuo.
Das pessoas que não sentem
Daquelas que não se portam.
Passos curtos esquecem o zelo
E a caligrafia, os bons modos.
Tu saberás quem tu criaste
E tu não poderás te esquivar.
O dia que se soma aos demais
Não anuncia o contrário.
Será preciso suprimir o ópio.
Muito trabalho e comiseração
Procedem desse preito.
Se tu queres que tuas crias
Sejam tão dignas, fiéis e belas
Como tu, na qualidade de Mãe
És para teus entes queridos,
Argumente pela realidade.
Ode ao suor e à labuta.
Esse país não carece mais
De parlatórios vultuosos.
O que nos falta é mais de ti.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nossa mãe, Roberto Carlos

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Reflexão

Quem vê o fato pensa no ato?
E quem de fato vê o fato?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ela fugiu (Racional), Tim Maia

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ousadia

Hoje é um dia triste!
Dia em que perdi a poesia.
Já não expresso bem o que sinto
Tampouco sinto tudo o que quero.
Quando caminho, o ar fica rarefeito.
E ao dormir, o sono desaparece.
Desejo coisas que não quero,
Quero outras que não preciso.
A saudade insiste em urgir
– mas meus gritos são mudos.

Todo passeio que pretendo
Ou as imagens que vislumbro
Não vejo cores – o nada é tudo!
E ao curvar-me a mim
Ao tornar-me realidade
Sinto que a poesia não me falta
O que me falta é ousadia
De continuar a querer ser
Aquilo que o mundo já não é.


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Society, Eddie Vedder

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Rectidão

O mundo está redondo
E de casa não a via.
Se fosse um Bavette
Sob o mar triunfaria.

Só que isso nada sou!

O mundo gira torto e
De lado não percebo.
Amiúde, quando a vejo
Sou de novo um ancião.

Quiçá entenda o jovem
Alhures neste espaço.
Um Homem, de lisura
Um futuro de sucesso.

Mas a história é de mentira
Foi maculada à surdina
Por aquele que difama
O amor da doce amada.

Esse amor, tão belo e forte
Se mantém na realidade
Já conheço o que não quero
O que eu quero é lealdade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Alegria, Alegria, Caetano Veloso

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Reptação

Mais um mês avigora sua não chegada.
Partem dedos e alertas, sobram contas.
Um receio imerso no próprio descuidado
E a certeza da incompreensão latente.

Será somente a vaga lembrança
de um futuro ainda não pensado?

Diferente do que se vê, do que sente.
Um confuso bem-estar de convicção.
Tragam-me as tulipas, Reptem-me!
O mundo carece muito de idealistas.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ensaio Sobre a Cegueira (2008)
Direção: Fernando Meirelles

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Tato Social

Para tentar entendê-los
Palavras são simplesmente
Imputadas desnecessárias...
Os corpos enlaçados
Em tensos braços amantes
Quem pronuncia o tato?

Ah, os olhos fechados!
Tudo prestes à sensação
A mais pura leveza,
Um sentimento esbelto
Que desfila na rua,
Nas rodas da ingratidão.

O despertar do infortúnio
Vacante em passos largos
Ao devaneio perpétuo
Para tornar a recuperar
Um corpo, Imobilizado
Uma alma, Decomposta.

E tu nunca mais serás par
Nunca mais regredirás
Nunca mais descartarás
O Amor, e tu serás - sim
Um ser humano ímpar
No tato raso da multidão.

Tudo explodirá - e tu?
Quem és tu? Onde estarás?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Society, Eddie Vedder

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O que era?

Eu tinha uma dádiva.
Se fosse por mim,
Nem se continha.
Era uma infâmia.

Mas nada era
Se não percebia.

Como uma mácula
Uma falta de dor
Só se sentia perto
Se perto consentia.
E era difícil andar ou
A graça estremecer.

O que era, então?

Era o silêncio do não
E a desatina canção.
Um poço de verdade.

Nada do que já existe.
Às vezes é só fantasia
Quase sempre era.

Já não é mais!
Agora é a verdade
Que de tão séria
Vai faltar por lá,
na terra da cortesia.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Insensatez, Vinícius de Moraes e Tom Jobim

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Desatino

O sentimento desentranhado
Leva-nos a perceber
O vão e a displicência
Do bem amado.
Quando não se gostava
O tato remediava o fato.
Mas agora, quando se gosta
Época de mimetismo e amor
O empenho denota o vão
E a simples equiparação
Causa tristeza irremediável.
Logo pensamos: será que há
Gente como a gente?
Reconheçamos-nos, ao menos
Nos píncaros da latência
Para que nossa deficiência
Liberte-se em aliteração
E some todos os anseios
Aos sonhos do outro coração.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeeiro

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Das coisas e das pessoas

Tem gente que aparece
Mas outros solidificam
De um lado, enobrecem
Só que do outro, fincam

Na alma, uma estaca
Em cima, um tampão

Nada por aqui é em vão
Uma porção de cogumelo
Ou um piano abandonado
Tudo aqui tem seu valor

E tudo nessa vida é alto
E tudo alimentado cresce
Eu fico, eu faço, eu volto
Nada me deixará arrefecer.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

www.wandula.com

http://br.youtube.com/watch?v=-fpVD0sJoAU

terça-feira, 27 de maio de 2008

O quem?

quem empurra
na ponte que cai?
mas se a ponte cai
alguém a derruba
ou só empurra
aquele que cai?

Rodrigo Sluminsky


+++ Etecetera


confirma
tudo que
respira
conspira

Paulo Leminski

sábado, 24 de maio de 2008

Amanhã

Eu te imploro mais um dia de ausência
Para que me proíbas de desfrutar teu ser
Enquanto meus braços estiverem atados
Nesta antiquada e doentia probidade
Quero que entendas a minha comichão
De um pobre ser humano miserável
Sem jardins para colher as tuas flores
Como um ébrio coletando êxtases pelo ar
E só peço que não te sumas da fantasia
Mesmo desacostumado com tua ausência
O amanhã tem lugar cativo no barquinho
Que ruma virtuoso e belo sobre as nuvens
Tudo que ouviste acerca do sol e do tato
Está muito bem guardado lá no porão
E eu te procurarei no escuro, meu anjo
E vejo um futuro que não tem tamanho.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

The Sweetest Gift, Sade

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um tempo de alienação

Um tempo de alienação
Tatos de poliglota.
Desejos desvairados?
Ultimato militar!
Castelo de argila,

Beijo apaixonado e
Máquina de dançar.
No alto, o horizonte
E a cama sobre o mar.
Se anseio o rarefeito
Na verdade quero já!
Esse mundo gira torto
Mas nem todo dia
Tropeçamos no azar!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Soundtrack from "Into the Wild", by Eddie Vedder

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Delírio

imóvel,
um toque de jasmim
trouxe à alma o afago
e o que eu trago?
um trago, no botequim
será o fim? não!
com calma, um abraço
no espelho da ilusão
até pedra alça vôo.

Rodrigo Sluminsky







+++ Etecetera

Elegie op. 3 n° 1, Sergei Rachmaninov

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Palavras

Não sou cara de palavras!
Ao menos as palavras ditas
Ouvidas pelos que vêem.
M'aprecia bem guardá-las
E somente as proferir
Quando aos olhos me convém.
Fico aqui, a meditar
Um pensamento, um lugar
Para aquelas que perdi.
Prefiro a palavra escrita
Talvez por escondida
De quem não a contém
Porque as palavras não ditas
Que os olhos não enxergam
Essas sim, poucos tem.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Villa-Lobos, por Astor Piazzola

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Gangorra da Vida

Como pode a queda cair assim
tão de repente,
nos braços de quem tutela
laços e sentimentos tão sinceros.
Pode ser que a queda seja falsa
- uma pseudo-queda!
Alarmando nervos e passos em vão...
Ou pode ser que tu se enganas
pensas que escolheste o lado certo
e nem imaginas que caíste
na queda mais profunda...
Mas se a queda cai assim
enquanto mantiveste a pose
ou tu quem cai
enquanto a queda fica,
a queda e tu, ou tu e a queda
nada mais são do que uma gangorra
A gangorra da vida!
Que equilibra tu e a queda,
enquanto a queda cai, o outro fica.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei, Malifa Oufkir e Michèle Fitoussi

terça-feira, 15 de abril de 2008

Ah, se todos soubessem...

Ah, se todos soubessem...
Fechar os olhos e desconectar
Todas as sinapses de lugar
Ouvir a ira saliente do trompete
Parafraseando sístole e diástole!
Não fossem os alvos, as metas
Os sábados aliciados em vão...
A ternura escorraçada ao acaso!
Se todos pudessem sentir o tato
Das pessoas que nem existem...
Se ao menos se tocassem, estes
Quiçá conhecessem o universo
Encravado naquele grão de areia
O mundo no leito da lealdade,
Todos com suas flores prediletas
Eu com minha adorável margarida
Que nem sei se flor ou se é moça
Mas de tão alva e frágil e bela
Fez de mim um indelével sonhador
E cada qual com seu ópio,
E cada protelado com sua cópia...
Por que cessaram com seus sonhos?
E por que temos que suportá-los
Se cá despretensiosos estamos?
Talvez precisem saber do anseio
Por um cabal grito de liberdade,
Do corpo e do espírito e tudo mais
Necessidade premente da soltura.
Mas não! Preferem os calabouços:
O entranhamento e estranhamento
De sentimentos, a horrenda sentinela
Que nos controla e alucina nosso ar
Com seus alucinógenos vulgares...
Se todos soubessem do resultado:
Que vale o amor, quando explode
Que vale a morte, quando revitaliza.
Tanta coisa maravilhosa à deriva
E os mortais, envoltos na pecúnia?
Triste ser, aquele deveras desolador,
Refutar o auge da loucura por Deus?
Preferir a retitude à sensibilidade?
Deixemo-nos tocar uns nos outros,
Permitamo-nos a mistura de cores...
Só quero um pouco de mim em você
E um pouco de você nela, sem alarde
Uma miscigenação da lascívia alheia
E todos e sempre com olhos no além e
Ouvidos e flancos perpétuos à felicidade.
Oxalá uma vida a esmo e sem carência,
Só a incontinência, desvairada e linda,
E um só tempo para os sempiternos.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

O mundo é um moinho, Cartola

terça-feira, 8 de abril de 2008

A áurea da fadiga

A áurea da fadiga
- há quem diga
caiu na pauta
da inspiração.
O que eu quero
nem nome tem!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

http://www.ciadeborahcolker.com.br/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Mocidade

Agora, a felicidade
Que não tem idade
Mas que tem carência
Do lado a paciência
E o que já era tarde
De novo é indecência
Resquício de saudade
Abuso de prudência
No lixo, a vaidade
Na alma, a essência
Um pitaco de latência
E a velha mocidade
Renova a identidade
Nos braços da querência.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Yesterday, The Beatles

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Enquanto o tempo...

Enquanto o tempo
passa pelos olhos
aos pés da escada
os olhos passam
aos pés que movem
um novo tempo:
outros olhos e pés
cansados de esperar
o tempo passar!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O Sole Mio, Luciano Pavarotti

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ansiedade

ao primeiro estalo
o corpo bamboleia
o sangue esquenta
a face, antes rubra
agora jamais peleia
mesmo os braços e
pernas, ou o cabelo
que nem despenteia
todos os apêndices
antes descontraídos
agora presos na teia
de nervos e tensões
prestes à calmaria.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Relax (take it easy), Mika

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Brasileiro

O poema só divaga
O problema é virtual.
O potente me garante
O projeto é sexual.
O porquê não me responde
O profeta é textual.
O postulado só me engana
O provável é eventual.
O populista pronuncia
O prospecto usual.
O posseiro me atropela
O probante é ilegal.
O político só quer ter
O poder habitual.
O poderoso não divide
O produto desigual.
O porrete me assola
O progresso é nacional.
O polícia não destoa
O povão é marginal.
O povo não se informa
O processo é racional.
O porco se distingue
O procedente é maioral.
O podre prolifera

O profícuo é casual.
O pó afaga a alma
O profano é animal.
O poeta se apaixona
O pro forma é tudo igual.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Pra não dizer que não falei de flores, Geraldo Vandré

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Conselho

Chega o dia em que a realidade vem à tona
Amargurando todos os nossos dias de ilusão.
Pensamentos recorrentes o deixaram pálido!
Agora você que decide pelo lado da coragem
E se prefere mesmo o caminho do progresso!
São pequenos passos nesta rua fria e escura,
E não seria saudável subestimar o lado do erro.
Você sabe que já ouviu diversos bons conselhos;
Você sabe que já experimentou o ócio e o amor.
Pode ser agora que o tempo finalmente chegou,
Com seus olhares sincréticos e coloridos...
Assim como um trem, que passa rápido demais,
É preciso se apressar para não perder o ponto.
Só que para não tropeçar nas próprias pernas
Uma boa dose de destruição se faz imperiosa:
Quebre rapidamente todas as portas para o vil,
Agora você escolhe entre a honra e a infâmia.
Picote com as mãos cartas de amores falidos
E as queime juntamente com o coração.
Fotos e recordações, somente as essenciais!
Amigos, só os dos dedos (inclusive dos pés).
Venda ou doe boa parte de sua biblioteca,
Mantenha livros de poesia e guias de viagens
E corte barba e cabelo de um jeito incomum!
O importante é sentir o amadurecimento
E se permitir agir sem medo do remorso...
Lembre-se que com a honra você escolhe
Ser um pássaro grande, belo e moribundo
Mas que sabe exatamente seu último ninho!
Aliás, nada disso tem a ver com sucesso,
Isto (e outras coisas) acaba sendo supérfluo.
Ao optar pelo volúvel caminho dos amantes
Você segue a mais bela trilha da felicidade,
Um percurso cheio de emoção e lágrimas
Como as que esparramam por sobre o papel...
Agora, meu caro, o futuro todo lhe pertence,
Em cada passo uma nova bela descoberta,
A cada incerteza uma nova sorrateira paixão.
E tudo sempre vertiginosamente intenso,
E tudo apaixonado e tão cheio de emoção,
Que deixará no peito dos que o viram passar
Um buraco imensurável e formoso de saudade
E um vazio intransponível pelo esquecimento
Que nem mesmo a certeza da existência latente
Fará o mundo girar do mesmo modo que outrora.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

E agora, José?, Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de janeiro de 2008

Poeminha

Agora eu choro
no teu colo
eu imploro
estou cansado
de sofrer.

Lá fora eu moro
contigo eu decolo
e te exploro
tá na hora
de viver.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

I'm Yours, Jason Mraz

sábado, 12 de janeiro de 2008

Metapoesia

Eu não escrevo
o que penso
Quando penso
eu escrevo
eu sinto
depois apago
Tudo prospera

quando deixo
de pensar

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Trecho de "Poemas Inconjuntos"

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Paisagem

Isto aqui não é fotografia!
São somente pássaros,
voando
E um sol reluzente,
à tardinha
Ocaso sobre um mar,
delirando
Pelas aventuras
que continha
À espera de nuvens,
espalhando
Cada nova estrela que
nascia
Acho que isso não é fotografia
É paisagem e poesia, todo dia!

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

I´m Yours, Jason Mraz

Youtube

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Código da Vida

A Dor e a Angústia
mesmo as maiores
quando arrostadas
acariciadas por nós
enobrecem a causa
que um dia qualquer
remeterá o prêmio
àqueles que amam e
perdoam o próximo:
Uma lágrima de pai;
Um sorriso de filho.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Uma pequena homenagem à obra Código da Vida, do Dr. Saulo Ramos (Ed. Planeta, 2007). Pouco saberá ele que ganhará distintos seguidores de sua paixão pela ética e pela cordialidade. Morreremos lutando por princípios, sem vender nossa alma!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O Beco

São milhares de passos para conhecê-lo.
Dizem que provém de uma longa estrada
que não tem mais fim, esse tal de Beco
Pedaço metafísico onde tudo se acaba.
Tem forma e lados como uma ferradura
Às vezes como um cone posto na vertical
Sugando todas nossas forças de menino.
É o Beco sem saída, aquele no escuro
Que dá medo só de pensar em vê-lo.
Mas sabem poucos que esta triste viela
De fim palpável e encontro determinado
É antes um atalho para achar a solução
Que anda dispersando energias por aí
Enquanto no Beco tudo é concentrado
Naquela parede outrora intransponível
Agora, somente o sujeito pode decidir
Entre restar imóvel aguardando a luz
Ou explodir sua ira em gritos e prantos
E indignação, dentro do Beco sem saída
Desfigurando o fim certo e determinado
No princípio de uma nova caminhada.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Racional, Tim Maia

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Dia e Noite

O dia me consome e não me pertence.
Perturba-me em fadigas memoráveis
Permanecer vivo assim, todos os dias
E à noite arrefecer mórbido na triste
Cama tão bem acolchoada de Maria.
Desvarios plurais e sujos insistem em
Abarrotar meu corpo ao amanhecer.
Resisto às pedras arrojadas em cada
Singular vértebra e costela do corpo.
Esse frio matutino, disforme e sombrio
Adultera o entusiasmo carnal da noite.
Lutamos contra esse monstro, que há
Mais em mim que outrora percebiam,
Quimera forte e soberana da manhã,
Apoiada por essa sociedade indecorosa.
Eu estimo o feio e o desproporcional,
Nada de castidade na minha solidão.
E desse sol, que insiste em machucar
Espero nada mais que o sumiço, para
Que o feitiço da lua sobrecarregue as
Energias que de mim o dia consumiu.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Picture Of My Life, Jamiroquai

domingo, 2 de dezembro de 2007

My My, Hey Hey

A trilha sonora
do nosso filme
tem uma música

"My My, Hey Hey
Rock and Roll
is here to stay"

E ficávamos ali
ouvindo o disco
E nos olhávamos
nos intervalos

"My My, Hey Hey
Rock and Roll
is here to stay"


E nos sentíamos
dentro do disco
E nos amávamos
nos intervalos

"My My, Hey Hey
Rock and Roll
is here to stay"

A trilha sonora
do nosso filme
tinha essa música.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

My My, Hey Hey, Neil Young

Youtube

Lyrycsfreak

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Saudades

Há saudades em pensar e imaginar
Saudades nos braços e nas pernas
Saudades no peito, que dói demais
Uma falta que não se bem sente
Sentimento torto e desentranhado
Das rodas cálidas da vivência
Há saudades nas coisas de pegar
Coisas de armário e de gavetas
Imensas de saudades de existir
Saudades do pedaço torto do corpo
Exaspero da imperfeição singular
E tu sabes que há saudades
Ainda que não saibas da mensagem
Triste fim temos nós, eu e tu
Duas metades inteiras de saudades
Um par de asas separado pelo vento
Sem desfiladeiro para propalar
Nosso amor amargurado pelo ar...

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ah, um Soneto, Fernando Pessoa

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Manumissão

I

Sobressaltos regulares
não cabiam mais nos
lugares predispostos.
O semblante rubro da
insônia companheira,
o tremelicar das pernas.
Tudo convergindo para
o estrondo:
implosão particular do
espectro descontrolado.


II

O bafejo da memória
impulsiona a avantesma
do cerceamento
para além do precipício.
Na terra sem limites
voar fora da asa
não é privilégio
do Poeta.
O estrépito é ouvido
por todo o universo!


III

A escabiosa arrefecida
por tensos devaneios
revolucionários...
Não há mar, não há céu!
Todos os velhos conceitos
foram agora refeitos.
O novo deprime
o vício:
anteparo natural da
manumissão do espírito.


IV

De volta à mansarda
nada seria como antes,
nem miséria ou angústia;
subtileza nas veias e um
âmago todo preenchido
de anarquia.
Eterna contemplação e
nenhum carrasco para impedir
o sorriso desta espécie,
insubordinada por natureza.

Rodrigo Sluminsky

+++ Etecetera
"[...]
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa... [...]"

Trecho de "Liberdade", poema de Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Gelo

Vamos explicar como é que nasce o gelo.
Depois de tampar o sol com uma peneira,
Use panos quentes para o rosto encobrir.
Logo depois, coloque um pouco de água fria
Assim mesmo, no imperativo, sem pena.
Aos poucos o silêncio se torna constrangedor.
Toque com um alfinete os calos e feridas
E espere o tempo que for para que sinta dor.
Quando perceber pedras d'água sobrepostas
Descarte a parte transparente do invólucro
E triture e pequenos pedaços o que restou.
Olhe rapidamente para todos à sua volta e
Sinta na pele a frieza inexorável do desamor.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Inoportuna, Jorge Drexler
Álbum: 12 segundos de oscuridad (2006)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Plenitude

o balançar ritmado do cachaço
determina nossa condição
imóvel, nosso corpo bamboleia
olhos fechados, respiração profusa
um terno fausto particular
em depravação latente
na íntima doçura de ser
onde sons denotam sinfonias
somos agora a própria natureza
um retrato tirado da parede
entregue novamente à realidade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Season in the sun, Cat Steven

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Intenso

Não se preocupem, vozes
lânguidas em suas almas.
Eu já disse outro dia que
todo dia é dia de poesia!
Ainda que tardia, sinto-a
vociferando em meu peito.
Se anseiam por seu efeito,
sejam em si mesmas som
vibrante e colorido, contra
o ruído imperfeito da nódoa
que assola nossa liberdade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

"Os homens que amam a uma só mulher são como os fósforos que só se acendem sobre a própria caixa."

Pitigrilli (1893-1975), pseudônimo de Dino Segre

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Boato

Eu também inventei
coisa nova de pensar
se me cala eu entejo
mas desejo o que fiz.
E se diz nem bem sei
ressoar nesse molejo
deixo ir o que já quis
atordoar até cansar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nostalgia, Manuel Bandeira

terça-feira, 9 de outubro de 2007

O Tempo Perdido

Ah!, como és ridículo!
A esta idade
buscando qualidade
em teus lençóis.
Já devias saber
que é só um ser
o bem amado.
Outros que vêm
porém
não trazem consigo
a paz e o conforto
para o teu lado.
Estes trazem - e muito
o não conforto
que o anjo torto
outrora disse a ti:
vai-te a esmo, poeta
pois, pelo tempo do amor
estás mais que atrasado!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

http://portalliteral.terra.com.br/

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Suicida

Eh!, agora a coisa ficou feia!
Vinho na mão, saca-rolhas.
Pegou a taça - uma taça!
São zero e trinta e seis
e você ainda sóbrio.
Acompanhando-lhe estão
o lápis e o papel.
Todos os outros se foram
e lhe deixaram imerso
no próprio escárnio.
Desse jeito o dia
vai demorar a nascer,
se é que vai...

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Smell like teen spirit, Nirvana