quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O trôpego da concórdia.

Oxalá, Ser e não pender,
essa consideração íntima
uma verdade repreendida
Na dura vivência de ser.


O desvelo embebedado
pelas engajadas arengas
carentes de contexto.

A necessidade premente
de substabelecer aos céus
O tempo que há-de vir.

O trôpego da concórdia.

Tem o capricho amador
Meu senhor,
Essa inquietude rebelde.

No afã da insensibilidade
Não somos.
Esquecemo-nos, privados.


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Inútil Paisagem, Tom Jobim

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Esvaecido

Passa o passo
Sustenta, de lado
Explode na dor
Suporta, sem flor
Um dia, quem sabe
Esquece a verdade
E foge, algures
Sem nem pudores.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ne Me Quittes Pas, Maria Gadu

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Lealdade

O sentimento volta à tona
Como quem sabe
Que nunca o deixou.
De lado viu-se tortuoso
O caminho do salto.
Não é sempre que persiste
Um balançar enviesado.

Estar é ser vivo no fato,
Caminhar com lealdade.
Acata-se o mundanismo,
Contém o arquejo e ama.
Resta insalubre e vil
Aquele que não está.
Somos todos humanos,
O casco vaza nos flancos.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Dream Machine, Mark Farina

terça-feira, 12 de maio de 2009

V

Um último suspiro

Gente delicada
perde pela força

Rodrigo Sluminsky

VI

Se o ditado muda
Muda tudo.
Da forma de verbar
Ao delírio do verbo
Uma letra dói
E um agrupado?
Frenesim
Medo
Nostalgia
Espanto
Amor
Uma só palavra
É samba de pincel.

Rodrigo Sluminsky

III

Retorno às
particularidades

Eu não volto
É uma volta!

Um dia ainda acontece
sabe-se lá, no vôo
ou mesmo na queda

O elogio profícuo
Ou a causa torpe
Não apetecem

Tem os meros
Tem o oblíquo

Gente que se preze
não titubeia no pesar.

Rodrigo Sluminsky

II

telefone sem fio
estribeiras ao ar
são laços perdidos
lançam ao mar
um ar de dúvida
pena que o ar
e o mar, ao sul
não eram nela
uma só felicidade.

Rodrigo Sluminsky

I

Os passos me explicam

todo dia
eu sou.

Ser Correto
Ser Humano
Ser Digno
Ser Leal

nunca
eu não sou.

Rodrigo Sluminsky

domingo, 10 de maio de 2009

Mãe

A ti, uma homenagem póstuma.
Nossa morte anuncia o vácuo.
Das pessoas que não sentem
Daquelas que não se portam.
Passos curtos esquecem o zelo
E a caligrafia, os bons modos.
Tu saberás quem tu criaste
E tu não poderás te esquivar.
O dia que se soma aos demais
Não anuncia o contrário.
Será preciso suprimir o ópio.
Muito trabalho e comiseração
Procedem desse preito.
Se tu queres que tuas crias
Sejam tão dignas, fiéis e belas
Como tu, na qualidade de Mãe
És para teus entes queridos,
Argumente pela realidade.
Ode ao suor e à labuta.
Esse país não carece mais
De parlatórios vultuosos.
O que nos falta é mais de ti.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nossa mãe, Roberto Carlos

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Reflexão

Quem vê o fato pensa no ato?
E quem de fato vê o fato?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ela fugiu (Racional), Tim Maia

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Ousadia

Hoje é um dia triste!
Dia em que perdi a poesia.
Já não expresso bem o que sinto
Tampouco sinto tudo o que quero.
Quando caminho, o ar fica rarefeito.
E ao dormir, o sono desaparece.
Desejo coisas que não quero,
Quero outras que não preciso.
A saudade insiste em urgir
– mas meus gritos são mudos.

Todo passeio que pretendo
Ou as imagens que vislumbro
Não vejo cores – o nada é tudo!
E ao curvar-me a mim
Ao tornar-me realidade
Sinto que a poesia não me falta
O que me falta é ousadia
De continuar a querer ser
Aquilo que o mundo já não é.


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Society, Eddie Vedder

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Rectidão

O mundo está redondo
E de casa não a via.
Se fosse um Bavette
Sob o mar triunfaria.

Só que isso nada sou!

O mundo gira torto e
De lado não percebo.
Amiúde, quando a vejo
Sou de novo um ancião.

Quiçá entenda o jovem
Alhures neste espaço.
Um Homem, de lisura
Um futuro de sucesso.

Mas a história é de mentira
Foi maculada à surdina
Por aquele que difama
O amor da doce amada.

Esse amor, tão belo e forte
Se mantém na realidade
Já conheço o que não quero
O que eu quero é lealdade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Alegria, Alegria, Caetano Veloso

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Reptação

Mais um mês avigora sua não chegada.
Partem dedos e alertas, sobram contas.
Um receio imerso no próprio descuidado
E a certeza da incompreensão latente.

Será somente a vaga lembrança
de um futuro ainda não pensado?

Diferente do que se vê, do que sente.
Um confuso bem-estar de convicção.
Tragam-me as tulipas, Reptem-me!
O mundo carece muito de idealistas.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ensaio Sobre a Cegueira (2008)
Direção: Fernando Meirelles

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Tato Social

Para tentar entendê-los
Palavras são simplesmente
Imputadas desnecessárias...
Os corpos enlaçados
Em tensos braços amantes
Quem pronuncia o tato?

Ah, os olhos fechados!
Tudo prestes à sensação
A mais pura leveza,
Um sentimento esbelto
Que desfila na rua,
Nas rodas da ingratidão.

O despertar do infortúnio
Vacante em passos largos
Ao devaneio perpétuo
Para tornar a recuperar
Um corpo, Imobilizado
Uma alma, Decomposta.

E tu nunca mais serás par
Nunca mais regredirás
Nunca mais descartarás
O Amor, e tu serás - sim
Um ser humano ímpar
No tato raso da multidão.

Tudo explodirá - e tu?
Quem és tu? Onde estarás?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Society, Eddie Vedder

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

O que era?

Eu tinha uma dádiva.
Se fosse por mim,
Nem se continha.
Era uma infâmia.

Mas nada era
Se não percebia.

Como uma mácula
Uma falta de dor
Só se sentia perto
Se perto consentia.
E era difícil andar ou
A graça estremecer.

O que era, então?

Era o silêncio do não
E a desatina canção.
Um poço de verdade.

Nada do que já existe.
Às vezes é só fantasia
Quase sempre era.

Já não é mais!
Agora é a verdade
Que de tão séria
Vai faltar por lá,
na terra da cortesia.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Insensatez, Vinícius de Moraes e Tom Jobim

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Desatino

O sentimento desentranhado
Leva-nos a perceber
O vão e a displicência
Do bem amado.
Quando não se gostava
O tato remediava o fato.
Mas agora, quando se gosta
Época de mimetismo e amor
O empenho denota o vão
E a simples equiparação
Causa tristeza irremediável.
Logo pensamos: será que há
Gente como a gente?
Reconheçamos-nos, ao menos
Nos píncaros da latência
Para que nossa deficiência
Liberte-se em aliteração
E some todos os anseios
Aos sonhos do outro coração.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

O Guardador de Rebanhos, Alberto Caeeiro

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Das coisas e das pessoas

Tem gente que aparece
Mas outros solidificam
De um lado, enobrecem
Só que do outro, fincam

Na alma, uma estaca
Em cima, um tampão

Nada por aqui é em vão
Uma porção de cogumelo
Ou um piano abandonado
Tudo aqui tem seu valor

E tudo nessa vida é alto
E tudo alimentado cresce
Eu fico, eu faço, eu volto
Nada me deixará arrefecer.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

www.wandula.com

http://br.youtube.com/watch?v=-fpVD0sJoAU

terça-feira, 27 de maio de 2008

O quem?

quem empurra
na ponte que cai?
mas se a ponte cai
alguém a derruba
ou só empurra
aquele que cai?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Confira
tudo que
respira
conspira

Paulo Lemiski

sábado, 24 de maio de 2008

Amanhã

Eu te imploro mais um dia de ausência
Para que me proíbas de desfrutar teu ser
Enquanto meus braços estiverem atados
Nesta antiquada e doentia probidade
Quero que entendas a minha comichão
De um pobre ser humano miserável
Sem jardins para colher as tuas flores
Como um ébrio coletando êxtases pelo ar
E só peço que não te sumas da fantasia
Mesmo desacostumado com tua ausência
O amanhã tem lugar cativo no barquinho
Que ruma virtuoso e belo sobre as nuvens
Tudo que ouviste acerca do sol e do tato
Está muito bem guardado lá no porão
E eu te procurarei no escuro, meu anjo
E vejo um futuro que não tem tamanho.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

The Sweetest Gift, Sade

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um tempo de alienação

Um tempo de alienação
Tatos de poliglota.
Desejos desvairados?
Ultimato militar!
Castelo de argila,

Beijo apaixonado e
Máquina de dançar.
No alto, o horizonte
E a cama sobre o mar.
Se anseio o rarefeito
Na verdade quero já!
Esse mundo gira torto
Mas nem todo dia
Tropeçamos no azar!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Soundtrack from "Into the Wild", by Eddie Vedder

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Delírio

imóvel,
um toque de jasmim
trouxe à alma o afago
e o que eu trago?
um trago, no botequim
será o fim? não!
com calma, um abraço
no espelho da ilusão
até pedra alça vôo.

Rodrigo Sluminsky







+++ Etecetera

Elegie op. 3 n° 1, Sergei Rachmaninov

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Palavras

Não sou cara de palavras!
Ao menos as palavras ditas
Ouvidas pelos que vêem.
M'aprecia bem guardá-las
E somente as proferir
Quando aos olhos me convém.
Fico aqui, a meditar
Um pensamento, um lugar
Para aquelas que perdi.
Prefiro a palavra escrita
Talvez por escondida
De quem não a contém
Porque as palavras não ditas
Que os olhos não enxergam
Essas sim, poucos tem.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Villa-Lobos, por Astor Piazzola

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Gangorra da Vida

Como pode a queda cair assim
tão de repente,
nos braços de quem tutela
laços e sentimentos tão sinceros.
Pode ser que a queda seja falsa
- uma pseudo-queda!
Alarmando nervos e passos em vão...
Ou pode ser que tu se enganas
pensas que escolheste o lado certo
e nem imaginas que caíste
na queda mais profunda...
Mas se a queda cai assim
enquanto mantiveste a pose
ou tu quem cai
enquanto a queda fica,
a queda e tu, ou tu e a queda
nada mais são do que uma gangorra
A gangorra da vida!
Que equilibra tu e a queda,
enquanto a queda cai, o outro fica.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei, Malifa Oufkir e Michèle Fitoussi

terça-feira, 15 de abril de 2008

Ah, se todos soubessem...

Ah, se todos soubessem...
Fechar os olhos e desconectar
Todas as sinapses de lugar
Ouvir a ira saliente do trompete
Parafraseando sístole e diástole!
Não fossem os alvos, as metas
Os sábados aliciados em vão...
A ternura escorraçada ao acaso!
Se todos pudessem sentir o tato
Das pessoas que nem existem...
Se ao menos se tocassem, estes
Quiçá conhecessem o universo
Encravado naquele grão de areia
O mundo no leito da lealdade,
Todos com suas flores prediletas
Eu com minha adorável margarida
Que nem sei se flor ou se é moça
Mas de tão alva e frágil e bela
Fez de mim um indelével sonhador
E cada qual com seu ópio,
E cada protelado com sua cópia...
Por que cessaram com seus sonhos?
E por que temos que suportá-los
Se cá despretensiosos estamos?
Talvez precisem saber do anseio
Por um cabal grito de liberdade,
Do corpo e do espírito e tudo mais
Necessidade premente da soltura.
Mas não! Preferem os calabouços:
O entranhamento e estranhamento
De sentimentos, a horrenda sentinela
Que nos controla e alucina nosso ar
Com seus alucinógenos vulgares...
Se todos soubessem do resultado:
Que vale o amor, quando explode
Que vale a morte, quando revitaliza.
Tanta coisa maravilhosa à deriva
E os mortais, envoltos na pecúnia?
Triste ser, aquele deveras desolador,
Refutar o auge da loucura por Deus?
Preferir a retitude à sensibilidade?
Deixemo-nos tocar uns nos outros,
Permitamo-nos a mistura de cores...
Só quero um pouco de mim em você
E um pouco de você nela, sem alarde
Uma miscigenação da lascívia alheia
E todos e sempre com olhos no além e
Ouvidos e flancos perpétuos à felicidade.
Oxalá uma vida a esmo e sem carência,
Só a incontinência, desvairada e linda,
E um só tempo para os sempiternos.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

O mundo é um moinho, Cartola

terça-feira, 8 de abril de 2008

A áurea da fadiga

A áurea da fadiga
- há quem diga
caiu na pauta
da inspiração.
O que eu quero
nem nome tem!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

http://www.ciadeborahcolker.com.br/

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Mocidade

Agora, a felicidade
Que não tem idade
Mas que tem carência
Do lado a paciência
E o que já era tarde
De novo é indecência
Resquício de saudade
Abuso de prudência
No lixo, a vaidade
Na alma, a essência
Um pitaco de latência
E a velha mocidade
Renova a identidade
Nos braços da querência.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Yesterday, The Beatles

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Enquanto o tempo...

Enquanto o tempo
passa pelos olhos
aos pés da escada
os olhos passam
aos pés que movem
um novo tempo:
outros olhos e pés
cansados de esperar
o tempo passar!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O Sole Mio, Luciano Pavarotti

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ansiedade

ao primeiro estalo
o corpo bamboleia
o sangue esquenta
a face, antes rubra
agora jamais peleia
mesmo os braços e
pernas, ou o cabelo
que nem despenteia
todos os apêndices
antes descontraídos
agora presos na teia
de nervos e tensões
prestes à calmaria.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Relax (take it easy), Mika

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Brasileiro

O poema só divaga
O problema é virtual.
O potente me garante
O projeto é sexual.
O porquê não me responde
O profeta é textual.
O postulado só me engana
O provável é eventual.
O populista pronuncia
O prospecto usual.
O posseiro me atropela
O probante é ilegal.
O político só quer ter
O poder habitual.
O poderoso não divide
O produto desigual.
O porrete me assola
O progresso é nacional.
O polícia não destoa
O povão é marginal.
O povo não se informa
O processo é racional.
O porco se distingue
O procedente é maioral.
O podre prolifera

O profícuo é casual.
O pó afaga a alma
O profano é animal.
O poeta se apaixona
O pro forma é tudo igual.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Pra não dizer que não falei de flores, Geraldo Vandré

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Conselho

Chega o dia em que a realidade vem à tona
Amargurando todos os nossos dias de ilusão.
Pensamentos recorrentes o deixaram pálido!
Agora você que decide pelo lado da coragem
E se prefere mesmo o caminho do progresso!
São pequenos passos nesta rua fria e escura,
E não seria saudável subestimar o lado do erro.
Você sabe que já ouviu diversos bons conselhos;
Você sabe que já experimentou o ócio e o amor.
Pode ser agora que o tempo finalmente chegou,
Com seus olhares sincréticos e coloridos...
Assim como um trem, que passa rápido demais,
É preciso se apressar para não perder o ponto.
Só que para não tropeçar nas próprias pernas
Uma boa dose de destruição se faz imperiosa:
Quebre rapidamente todas as portas para o vil,
Agora você escolhe entre a honra e a infâmia.
Picote com as mãos cartas de amores falidos
E as queime juntamente com o coração.
Fotos e recordações, somente as essenciais!
Amigos, só os dos dedos (inclusive dos pés).
Venda ou doe boa parte de sua biblioteca,
Mantenha livros de poesia e guias de viagens
E corte barba e cabelo de um jeito incomum!
O importante é sentir o amadurecimento
E se permitir agir sem medo do remorso...
Lembre-se que com a honra você escolhe
Ser um pássaro grande, belo e moribundo
Mas que sabe exatamente seu último ninho!
Aliás, nada disso tem a ver com sucesso,
Isto (e outras coisas) acaba sendo supérfluo.
Ao optar pelo volúvel caminho dos amantes
Você segue a mais bela trilha da felicidade,
Um percurso cheio de emoção e lágrimas
Como as que esparramam por sobre o papel...
Agora, meu caro, o futuro todo lhe pertence,
Em cada passo uma nova bela descoberta,
A cada incerteza uma nova sorrateira paixão.
E tudo sempre vertiginosamente intenso,
E tudo apaixonado e tão cheio de emoção,
Que deixará no peito dos que o viram passar
Um buraco imensurável e formoso de saudade
E um vazio intransponível pelo esquecimento
Que nem mesmo a certeza da existência latente
Fará o mundo girar do mesmo modo que outrora.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

E agora, José?, Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de janeiro de 2008

Poeminha

Agora eu choro
no teu colo
eu imploro
estou cansado
de sofrer.

Lá fora eu moro
contigo eu decolo
e te exploro
tá na hora
de viver.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

I'm Yours, Jason Mraz

sábado, 12 de janeiro de 2008

Metapoesia

Eu não escrevo
o que penso
Quando penso
eu escrevo
eu sinto
depois apago
Tudo prospera

quando deixo
de pensar

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Trecho de "Poemas Inconjuntos"

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Alberto Caeiro

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Paisagem

Isto aqui não é fotografia!
São somente pássaros,
voando
E um sol reluzente,
à tardinha
Ocaso sobre um mar,
delirando
Pelas aventuras
que continha
À espera de nuvens,
espalhando
Cada nova estrela que
nascia
Acho que isso não é fotografia
É paisagem e poesia, todo dia!

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

I´m Yours, Jason Mraz

Youtube

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Código da Vida

A Dor e a Angústia
mesmo as maiores
quando arrostadas
acariciadas por nós
enobrecem a causa
que um dia qualquer
remeterá o prêmio
àqueles que amam e
perdoam o próximo:
Uma lágrima de pai;
Um sorriso de filho.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Uma pequena homenagem à obra Código da Vida, do Dr. Saulo Ramos (Ed. Planeta, 2007). Pouco saberá ele que ganhará distintos seguidores de sua paixão pela ética e pela cordialidade. Morreremos lutando por princípios, sem vender nossa alma!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

O Beco

São milhares de passos para conhecê-lo.
Dizem que provém de uma longa estrada
que não tem mais fim, esse tal de Beco
Pedaço metafísico onde tudo se acaba.
Tem forma e lados como uma ferradura
Às vezes como um cone posto na vertical
Sugando todas nossas forças de menino.
É o Beco sem saída, aquele no escuro
Que dá medo só de pensar em vê-lo.
Mas sabem poucos que esta triste viela
De fim palpável e encontro determinado
É antes um atalho para achar a solução
Que anda dispersando energias por aí
Enquanto no Beco tudo é concentrado
Naquela parede outrora intransponível
Agora, somente o sujeito pode decidir
Entre restar imóvel aguardando a luz
Ou explodir sua ira em gritos e prantos
E indignação, dentro do Beco sem saída
Desfigurando o fim certo e determinado
No princípio de uma nova caminhada.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Racional, Tim Maia

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Dia e Noite

O dia me consome e não me pertence.
Perturba-me em fadigas memoráveis
Permanecer vivo assim, todos os dias
E à noite arrefecer mórbido na triste
Cama tão bem acolchoada de Maria.
Desvarios plurais e sujos insistem em
Abarrotar meu corpo ao amanhecer.
Resisto às pedras arrojadas em cada
Singular vértebra e costela do corpo.
Esse frio matutino, disforme e sombrio
Adultera o entusiasmo carnal da noite.
Lutamos contra esse monstro, que há
Mais em mim que outrora percebiam,
Quimera forte e soberana da manhã,
Apoiada por essa sociedade indecorosa.
Eu estimo o feio e o desproporcional,
Nada de castidade na minha solidão.
E desse sol, que insiste em machucar
Espero nada mais que o sumiço, para
Que o feitiço da lua sobrecarregue as
Energias que de mim o dia consumiu.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Picture Of My Life, Jamiroquai

domingo, 2 de dezembro de 2007

My My, Hey Hey

A trilha sonora
do nosso filme
tem uma música

"My My, Hey Hey
Rock and Roll
is here to stay"

E ficávamos ali
ouvindo o disco
E nos olhávamos
nos intervalos

"My My, Hey Hey
Rock and Roll
is here to stay"


E nos sentíamos
dentro do disco
E nos amávamos
nos intervalos

"My My, Hey Hey
Rock and Roll
is here to stay"

A trilha sonora
do nosso filme
tinha essa música.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

My My, Hey Hey, Neil Young

Youtube

Lyrycsfreak

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Saudades

Há saudades em pensar e imaginar
Saudades nos braços e nas pernas
Saudades no peito, que dói demais
Uma falta que não se bem sente
Sentimento torto e desentranhado
Das rodas cálidas da vivência
Há saudades nas coisas de pegar
Coisas de armário e de gavetas
Imensas de saudades de existir
Saudades do pedaço torto do corpo
Exaspero da imperfeição singular
E tu sabes que há saudades
Ainda que não saibas da mensagem
Triste fim temos nós, eu e tu
Duas metades inteiras de saudades
Um par de asas separado pelo vento
Sem desfiladeiro para propalar
Nosso amor amargurado pelo ar...

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ah, um Soneto, Fernando Pessoa

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Manumissão

I

Sobressaltos regulares
não cabiam mais nos
lugares predispostos.
O semblante rubro da
insônia companheira,
o tremelicar das pernas.
Tudo convergindo para
o estrondo:
implosão particular do
espectro descontrolado.


II

O bafejo da memória
impulsiona a avantesma
do cerceamento
para além do precipício.
Na terra sem limites
voar fora da asa
não é privilégio
do Poeta.
O estrépito é ouvido
por todo o universo!


III

A escabiosa arrefecida
por tensos devaneios
revolucionários...
Não há mar, não há céu!
Todos os velhos conceitos
foram agora refeitos.
O novo deprime
o vício:
anteparo natural da
manumissão do espírito.


IV

De volta à mansarda
nada seria como antes,
nem miséria ou angústia;
subtileza nas veias e um
âmago todo preenchido
de anarquia.
Eterna contemplação e
nenhum carrasco para impedir
o sorriso desta espécie,
insubordinada por natureza.

Rodrigo Sluminsky

+++ Etecetera
"[...]
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa... [...]"

Trecho de "Liberdade", poema de Fernando Pessoa

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O Gelo

Vamos explicar como é que nasce o gelo.
Depois de tampar o sol com uma peneira,
Use panos quentes para o rosto encobrir.
Logo depois, coloque um pouco de água fria
Assim mesmo, no imperativo, sem pena.
Aos poucos o silêncio se torna constrangedor.
Toque com um alfinete os calos e feridas
E espere o tempo que for para que sinta dor.
Quando perceber pedras d'água sobrepostas
Descarte a parte transparente do invólucro
E triture e pequenos pedaços o que restou.
Olhe rapidamente para todos à sua volta e
Sinta na pele a frieza inexorável do desamor.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Inoportuna, Jorge Drexler
Álbum: 12 segundos de oscuridad (2006)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Plenitude

o balançar ritmado do cachaço
determina nossa condição
imóvel, nosso corpo bamboleia
olhos fechados, respiração profusa
um terno fausto particular
em depravação latente
na íntima doçura de ser
onde sons denotam sinfonias
somos agora a própria natureza
um retrato tirado da parede
entregue novamente à realidade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Season in the sun, Cat Steven

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Intenso

Não se preocupem, vozes
lânguidas em suas almas.
Eu já disse outro dia que
todo dia é dia de poesia!
Ainda que tardia, sinto-a
vociferando em meu peito.
Se anseiam por seu efeito,
sejam em si mesmas som
vibrante e colorido, contra
o ruído imperfeito da nódoa
que assola nossa liberdade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

"Os homens que amam a uma só mulher são como os fósforos que só se acendem sobre a própria caixa."

Pitigrilli (1893-1975), pseudônimo de Dino Segre

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Boato

Eu também inventei
coisa nova de pensar
se me cala eu entejo
mas desejo o que fiz.
E se diz nem bem sei
ressoar nesse molejo
deixo ir o que já quis
atordoar até cansar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nostalgia, Manuel Bandeira

terça-feira, 9 de outubro de 2007

O Tempo Perdido

Ah!, como és ridículo!
A esta idade
buscando qualidade
em teus lençóis.
Já devias saber
que é só um ser
o bem amado.
Outros que vêm
porém
não trazem consigo
a paz e o conforto
para o teu lado.
Estes trazem - e muito
o não conforto
que o anjo torto
outrora disse a ti:
vai-te a esmo, poeta
pois, pelo tempo do amor
estás mais que atrasado!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

http://portalliteral.terra.com.br/

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Suicida

Eh!, agora a coisa ficou feia!
Vinho na mão, saca-rolhas.
Pegou a taça - uma taça!
São zero e trinta e seis
e você ainda sóbrio.
Acompanhando-lhe estão
o lápis e o papel.
Todos os outros se foram
e lhe deixaram imerso
no próprio escárnio.
Desse jeito o dia
vai demorar a nascer,
se é que vai...

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Smell like teen spirit, Nirvana

domingo, 30 de setembro de 2007

Silêncio

Há dias inteiros em que se passam
todos os momentos, normalmente
sem que de você as pessoas ouçam
uma singular palavra
um grito do êxtase
um lamento sequer.

Esses dias foram feitos de algodão
para serem passados sem perceber
a existência de sons do emissário.

Que de fato nem existem, os sons
de vozes, espasmos ou lamentos
propagando-se em ondas no ar.

Dias em que não se diz palavra alguma
um dia inteiro, sem palavra alguma
só para dizer para quem puder sentir
que a voz do silêncio, naquele momento
diz tudo que alguém gostaria de ouvir.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O sol.

sábado, 29 de setembro de 2007

Ofegante

Pode até ser bonito
teu ar de erudito
esse pensar lúdico
de padrão regular.

Mas respiras pouco
do ar que podes
dispnéia pela razão
em primeiro lugar.

E tu olhas pra gente
com esse ar esnobe
que perante o público
só tens a dissimular.

Arre!, se bem sabes
o ar que respiras,
por que ainda não
paraste de pensar?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Racional, Tim Maia

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Viva a beleza da vida!

Aos que desejam a morte escarlate a qualquer custo
lamento afirmar que minha poesia tem o viés negativo
em favor dos prazeres da própria carne e da heresia.
Toda vez que percebo a vitória do grotesco, do descortês,
trago imediatamente à mão todas as minhas esferográficas
e reescrevo de modo diverso o mesmo poema de ontem.
Tal qual uma epopéia reacionária ou uma cruzada sem deus,
porém redigida em forma de movimentos em uma sinfonia.
Altercamo-nos hoje e a cada novo dia contra a
proliferação gratuita do feio, do hermeticamente horrendo,
contra aquilo que causa desconforto interno quando em
nosso âmago percebemos por sentidos o desastre.
Aos que desejam a funesta infelicidade dos mortais,
prezamos por esse combate deveras vezes ideológico,
porém reconfortante como fardos de algodão em rama
simetricamente dispostos em forma de salvaguarda,
para salvar-nos da maior queda: a nossa própria.
Sim, porque o feio somos nós mesmos quando nos vemos
no espelho da realidade, aplicamos nossos feios princípios
às nossas fraquezas, ou quando não sabemos perdoar.
Trazer tudo e todos ao belo é a tarefa da minha poesia,
que neutraliza reles sons e luzes, muito mais ruidosos
e desconformes que a harmonia do vôo do beija-flor,
ou quando comparados à cor da flor chamada margarida.
E aos que fazem das mortalhas um tenso flanco roto,
imponho minha poesia como um imperativo categórico.
Terão os bastardos que tolerar, sob minhas ordens,
a harmoniosa canção de todos os pássaros silvestres
e o luar resplandecendo brilho e vida sobre o mar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Um céu numa flor silvestre: a beleza em todas as coisas, Rubem Alves

domingo, 23 de setembro de 2007

Chove, chuva!

Um incontável número de gotas
desabam frias sobre a multidão,
que suporta o ônus liquefeito da
jactância escorrendo pelo esgoto.

O barulho intenso dos relâmpagos
anuncia o vigor temido da limpeza,
que extermina qualquer impureza
e desguarnece o mal intencionado.

É chegada a hora certa da verdade!
Não há tempo ruim para contestar
o inefável valor das palavras, nem
momento distinto para esquivar-se.

A chuva ora cai em precedência ao
belo sentimento ulterior de limpidez
talvez tão belo e necessário que não
acaba cedo o tormento dos homens.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

November Rain, Guns N' Roses

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Volúpia do Mundo

Havia um forte desejo
de sentir novamente
aquele fato inusitado.

Pensar na forma torpe
de sua mácula restante
não altera a mistificação.

Um apetite imensurável
de propagar a vida amante
o nosso mais belo legado.

Abraçar a volúpia do mundo
para continuar apaixonante
a nossa única condição.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

As Canções Que Você Fez Pra Mim, Maria Bethânia

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Auto-compaixão

Incansável
a visão seca
do amor

quem me dera
ultrapassar
o anseio

há paz maior
do que o sol em
dias de semana?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nothing as it seems, Pearl Jam

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Mansidão

Seria tão fácil dizer
não fosse o tato,
indizível momento
de ser

inexplicável fato
suas pálpebras
completamente
bem delineadas

sensação de
exaspero singular
porção de esmo
e desejo

reunião de mitos
desfeitos no ato
da posterior
lágrima de solidão.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

All of me, Billie Holiday

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Opinião

Sabe o que eu acho?
As pessoas morreram de solidão.
Sim, porque de excessos não foi!
Quando um passarinho vem
de mansinho e briga comigo
sei que o mundo parou de girar.
Ao menos para os astros,
que bem na verdade somos
eu e você, quando dizemos
um no ouvido do outro
que ficamos sem palavras.
Tento imaginar porque ainda
tem gente que desiste.
Deve ser por não reconhecer
a beleza noturna da lua,
ou por manter enjaulados
seus passarinhos na gaiola.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Let there be love, Oasis

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Agora...

Chove lá fora
aqui dentro
estou lá fora
em pensamento
meu agora
é um tormento
que revigora
a sensação.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

My Culture, Robbie Williams e One Giant Leap

terça-feira, 28 de agosto de 2007

A situação é complicada!

A situação é complicada.
Se dois passos avanço,
saio de novo da estrada.
Se parado eu fico,
eu não alcanço a parada.
A situação é complicada.
A oposição é malcriada.
Se dois passos avanço,
saio de novo da estrada.

Se parado eu fico,
perco o fio da meada.
A situação é complicada.
A oposição é dedicada.
Se parado eu fico,
acabo de mãos atadas.
Se dois passos avanço,
é a vida desenfreada.
A situação é complicada.
A estrada esburacada.
A oposição alienada.
A vida empacotada!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Prelude in A minor, Baden Powell

domingo, 26 de agosto de 2007

Prudência

Dizem que somos feios, crasos
que não respeitamos valores!
Dizem que entregamos flores
porque as roubamos dos vasos.

Dizem que temos princípios rasos
e que não tivemos tutores...
Dizem que os nossos amores
são lotes de corações dissimulados.

E se o que dizem eles é verdade
nessa mistura de afagos e malícia
estamos no caminho da felicidade

uma vida amante e sem carência
deixando uma legião de saudade
padecer nos braços da prudência.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

http://poesia-de-sete.blogspot.com/

sábado, 25 de agosto de 2007

Cansado!

Cansei de mim
quero poder
se não me deixas
eu pulo!
Agora sou eu
eu comando
quero a maioria
mas, e o botão?
Avante!
no sabão em pó
é liso, é neutro
espero, quero
sou agora o bis
apedrejado
se não me quis
eu não tolero
e não te quero
és um bobão!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Close to me, the Cure

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Simplicidade

Eu só queria um espaço
muito bem delimitado
para olhar e apreciar
detalhes sobre o chão.

Queria ver pingar a'gua
d'onde caem as goteiras
eu queria das roseiras
um espinho e um botão.

E das matas ciliares
queria pedras e cipós
para atar todos os nós
que contêm a emoção.

Mas não h'aste regular
com tamanha lealdade
fujo logo da beldade
quer a rosa? tá na mão!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

"As coisas não se submetem à nossa vestidura."
Trecho de "O Homem e as Coisas", de Carlos Nejar

sábado, 18 de agosto de 2007

Enquanto você fala...

Enquanto você fala
a poesia não acaba
de fazer acontecer
a força da palavra
em cada amanhecer
a cada nova estrada.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

"É romance, é odisséia, é poema, é epopéia, é sátira, é apocalipse."
Rachel de Queiroz

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O Pino

Sou agora um pino,
que por ser o que é,
desafina totalmente
da poesia vigorante.

Sirvo para machucar
as superfícies alheias,
presionar, furar e até
no seu inverso cravar.

Sou esse misto de ira
e teimosia rabugenta,
de pensar debilitado e
que sangra até sofrer.

Não resta mais forças
para manter a honra,
sou agora só um pino,
que assola sem pesar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Sinfonia nº 29 em Lá maior K.201/186a (1774), Wolfang Amadeus Mozart

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Sempre, para sempre

Talvez
eu simplesmente
não queira ver
o que foi que você fez
com aquilo que deixei.

Talvez
eu solenemente
não possa suportar
fixar o meu olhar
nos lábios que beijei.

Talvez
eu eternamente
não queira ouvir
palavras de partir
e sentir que já amei.

Eu só quero é voar
cantarolar ao seu olhar
e nos lábios que deixei
beijar até cansar
ouvir que já amei
porque eu sempre te amarei
e pra sempre vou te amar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Live forever, Coldplay

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Existencialismo

Um bosque cheio de pregos enferrujados
pisou no calo da senhora desfigurada.
Quantos quilos tinha o passarinho azul?
Só se noticiava a falta de ervilhas para
fabricar o combustível das locomotivas.
Como saber se faltavam lápis de cor se à
mesa juntaram-se o príncipe e a baronesa?
Realmente, o mar estava ficando sólido.
Desde que a esfinge saiu correndo no atol
os deuses nunca mais compraram meias.
Parece algo democrático, mas sem cabelo.
Outro dia o ciático entrou de férias e saiu
para conversar com a formiga analógica.
Veja só você, que estuda a morfologia do
estrume, conversando com a natureza.
O que alicerce faz neste lado?, perguntou.
A resposta foi ao cinema comer pipoca,
mas os celulares estavam alienados.
Depois, a cultura existencialista aderiu ao
momento de contingenciamento do nada.
Tudo estava cada momento mais escasso
que não se via o deserto nas poeiras lunares.
Sonhos não falavam, o medo era colorido,
as abelhas pararam de costurar petróleo...
Acho que era por causa de seu chapéu côco.
No final das letras, a população de Sidarta
não pôde conhecer a soma das dúvidas.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Walking Life (EUA, 2001)
Direção: Richard Linklater

domingo, 12 de agosto de 2007

No lugar comum

No lugar comum as pessoas
voltam pra casa, os carros
pegam a estrada, as crianças
brincam na calçada.
O vento sopra diferente,
no lugar comum.
Tem dia que não é quente,
na madrugada há pouca gente,
as paredes das casas são alvas.
O lugar comum é onde
tem pássaro e mar todo dia,
o relógio bate ao meio-dia,
a moça negra faz café,
numa espécie de mimetismo.
As pessoas têm duas pernas
e podem chegar aonde querem.
Aqui não se chega acolá,
já no lugar comum
sempre lugares para ir,
belas histórias para ouvir,
coisas novas para ver.
As pessoas se percebem,
entretidas umas nas outras
:algo de si nelas mesmas.
Porque no lugar comum
tem muita coisa incomum.
Tem papai noel e televisão,
tem feriados, dias da semana
(qual dia não seria?), e tem uma
coisa que incomoda bastante,
que pela falta de nome as
pessoas chamam de coração.
E quando falam isso não me
parece mais o lugar comum.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Autopsicografia, Fernando Pessoa

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Aconchego

Palavras soltas, em um velho
cantinho de inverno.
Não retornam, nunca mais
ao cais de onde partiram.

Em seu ninho agora resta
mais do que antes tinha.
Para sua vida agora sobra

mais lápis e porpurina.

Tudo sempre colorido e intenso,
na madrugada fria e congelante,
denso sentimento de alegria,
amável sensação de aconchego.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Baby, it's cold outside, Ray Charles & Ella Fitzgerald

terça-feira, 17 de julho de 2007

Sobre a vida...

A vida vai fácil, meu caro
feito pipocas alvas
que derretem na boca
doce sem sal
Mas a vida, meu caro
a vida não erra
não perdoa
como os cães e nós
o fazemos
A vida não, meu caro
a vida passa em bloco
feito avalanche
que nunca mais volta
As pequenas coisas
- palavras, flores, tato
isso acontece
A vida, meu caro
simplesmente atropela
Uns, dirigem-na
o restante
se autodenomina!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

A canção da vida, Mário Quintana

domingo, 15 de julho de 2007

Soneto

Cansado de imaginar,
é tempo de viver!
Beijar, ficar sem ar,
amar e poder sofrer.

Não posso mais esperar
para tentar um dia ser!
Um passo para andar,
é tempo de correr.

Às favas cada sentimento
de resguardo e prudência,
nada de padecimento:

Viva a independência!
Amor a todo momento:
é tempo de indecência.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Filosofia, Ascenso Ferreira

terça-feira, 10 de julho de 2007

Ritmo

tum-tum
tum-tum
bate depressa
acelerado
meu coração

tum-tum
tum-tum
foge depressa
enviesado
da emoção.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Anjo, Carlos Nejar

segunda-feira, 9 de julho de 2007

E agora, acabou?

E agora, acabou?
Será que zerou
o que prometeu
ou arrefeceu
tudo e quebrou
a promessa de
terminar aquilo
e perder alguns
quilos para agora
zerar enfim o que
já era hora mas
bem da verdade
nunca tem fim.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

E agora, José?, Carlos Drummond de Andrade

domingo, 8 de julho de 2007

E a poesia...

E a poesia não acaba
enquanto os homens
gemem de medo na
cabana da ilusão por
não terem compaixão
ou recebido perdão e
lamento de quem já
nem sabe mais o que
aconteceu aquele dia.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O Casamento, Nelson Rodrigues

sábado, 7 de julho de 2007

Começo do fim

Começo por perguntar
onde foi restar
o ninho dos passarinhos
e o poço de carinho?

Começo por perguntar
onde foi ficar
o beijo desconhecido,
a novidade esvaecida?

Começo por perguntar
onde posso procurar
o lado esquecido e
a delicadeza perdida?

Começo a perguntar
se devo chorar
por estar perdido
nesse mundo vazio.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Metamorfose, Franz Kafka

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Irriquieto

Quieto,
me não fale nada,
estou irriquieto,
preciso logo
pegar a estrada.

Quieto, quieto,
os nervos propulsam
o conjunto de veias
e artérias e carne,
que são meu corpo.

Quieto, por favor,
refira-se a mim
como um estorvo,
sem documento e
sem sentido.

Quero apenas uma luz,
um caminho que
indique o barulho, fuja
do entulho desse
silêncio contrangedor.

Quieto, seu idiota,
mantenha-se quieto
que eu, irriquieto
parto logo sua cara e
também por aquela porta.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Gimme Shelter, Rolling Stones

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sombra Noturna

A bela lua
fazia sombra
daquela luz
que vinha do sol.

Pelo horário,
em torno do
meio-dia
da noite,

saí do sol
e me pus
na penumbra
a ver a Lua.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

La bella luna, Paralamas do Sucesso

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Triste

a lágrima escorre
pelo vão
aberto na face
até o chão
quando pára
explode,
espalha
outro não
e a lágrima morre.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Eu, Augusto dos Anjos

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Insignificância

A imensidão do mar não mente.
Tudo é tão pequeno e feio
quanto conseguimos enxergar
:somos insignificantes, pobres, inúteis.

Nós aqui não somos pensados,
não somos vistos, não somos ouvidos.
Exatamente aqui, imersos nessa indagação,
não somos quistos, não somos amados.

E não é nada indiferente.
Tudo é tão ameno e seco,
uma mácula à beleza da paisagem
:somos inebriantes, torpes, fúteis.

Aqui não somos queridos,
aqui não somos amados,
aqui não devíamos estar,
aqui não devemos morrer.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Máquina de escrever, Pedro Luís e a Parede

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Paradoxo

O paradoxo é fascinante
nos faz pular do precipício
e desligar a gravidade
só para não sentir o ar
naquele singelo instante
assolar nossa vitaliciedade
pelo medo de se propagar
diretamente do nada
para toda a eternidade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Museu da Língua Portuguesa

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Lástima

A vida vamos vivendo
enquanto o tempo
nos deixa velhos e tristes.

O coração chora carente
enquanto o relento
nos deixa sós e decadentes.


Os sonhos sinto sumindo
enquanto o alento
nos deixa vãos e pedintes.

As pessoas pensando pequeno
enquanto o momento
nos deixa miúdos e fúteis.

A vida
vamos
vivendo
a vida
vamos
vida
vivendo...


As pessoas pensando pequeno
enquanto no tempo
sós e decadentes.

Os sonhos sinto sumindo
enquanto do momento
vãos e pedintes.

O coração chora carente
enquanto ao relento
velhos e tristes.

A vida vamos vivendo
enquanto com alento
miúdos e fúteis.


A vida
vamos
vivendo
a vida
vamos
vida
vivendo...

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Sweet Suburban Sky, Paddy Casey

domingo, 3 de junho de 2007

Greve! Greve!

Protesto! Queremos mais Amor!
Pela distribuição imediata do Amor!
Greve! Greve!
Greve nacional de perdedores públicos!

Protesto! Protesto!
Pelo imediato reajuste afetivo e

correção sentimental.
Aumento já! Mais Amor!

Exigimos mais Amor nos cofres privados!
Protesto! Protesto!

Exigimos o descumprimento do acordo conjugal!
Protesto! Pela liberdade e pelo Amor!
Por um plano de beijos e carinho!
Pelo respeito às leis! Pelo respeito às leis do Amor!
Mais Amor! Mais Amor!
Respeitem os menos amados!
Greve! Greve!
Greve por tempo indeterminado!
Greve enquanto faltar Amor!


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Vou te levar, Lobão

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Sinédoque

Será de fato aceitável
recorrer aos deuses
para ser mais amável
algumas tantas vezes?

Ou será mesmo no chão
que tudo apodrece
ouve-se um grande não
e nada mais floresce.

Volto a casa, translúcido
deixo o tempo passar
antes de ter-me partido
depois de vê-los ficar.

Sou agora somente eu
num estado desnatural
de pensar efêmero e ateu
acintosamente irracional.

Quero de mim um décimo
do que senti na pele
por isso fujo ao máximo
de tudo que me flagele.

Uma casa, un chauffeur
uma mulher importada
maison au bord de la mer
uma noviça abastada.

Que pr'eu parar de proclamar
e ver se os deuses resolvem
minhas lamentações de amar
já que nem mais me ouvem.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Le Petit Prince, Antoine de Saint-Exupéry

Les Invasions barbares (France, 2003)
Diretor e Escritor:Denys Arcand


sexta-feira, 25 de maio de 2007

Incomum

Passou do tato à memória
dizia que não gosta e ela murchou
fez papel de tola,
jogou a toalha mas
ainda assim era de plástico.
Juntos os cacos,
colou os lados, de canto
via-se os olhos entreabertos,
fechando a porta
que restou aberta
depois que o sol se pôs.
E enquanto passava
o trem destoava
com seu barulho novo
de onomatopéia:
viu, sentiu, lembrou
e agora deu saudades.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Carioca, Chico Buarque

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Todo mundo quer...

Todo mundo quer apenas
um pouco de carinho
daqueles bem pequininho,
de fazer cair o chão.

Todo mundo pensa
em fazer muito carinho
mas nem todos querem
fazer papel de bobalhão.

Todo mundo s'imagina
distribuindo carinho
daqueles sem-vergonha
que se tocam de montão.

E todo mundo morre
sem fazer carinho
porque bem atrás da moita
s'escapam da emoção.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

All of me, Billie Holiday

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Descartáveis

Somos todos nós descartáveis.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

"Vontade de me jogar fora!" (Descartável)
Francisco Alvim

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Confusão

É necessário exprimir em palavras decrescentes o ódio crescente de estar do mesmo modo que foi dito outro dia quando já não se podia dizer em palavras ausentes sentimentos latentes de restar sem coração deturpado que foi onde apenas havia pensamentos dormentes de propostas decentes desencorajadas a ficar naquele lugar que já não existe mais e puro demais para quem não tem a vertente mormente consistente de mandar naquilo que foi alvo de chacotas e anedotas pudera exprimir tamanha revolta por aniquilar qualquer sentimento de perdão e amor para se perder completamente nas coisas da mente e alimentar um ego arrefecido em lágrimas petrificadas por contemplação e dor de não mais ser lembrado por quem deveria lembrar de pensar todos os dias como a gente era contente em manter um e o outro na mente sem trocar as sinapses de lugar para reformular os momentos deprimentes de angústia e labor e arrancar da mente a ira saliente que insistia em amordaçar os calos do amor que você fatalmente deixará.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Cherish, Renato Russo

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Um ser amado...

Um ser amado
devia ser naturalmente
cortejado
e de modo algum
corado
quando belas palavras
escutado.

Um ser amado
devia ser eternamente
idolatrado
e deveras vezes
perdoado
quando erros banais
praticado.

Um ser amado
devia ser simplesmente
cultivado
e todos os dias
adorado
mesmo com amor
fracassado.

Um ser amado
devia ser
acima de tudo
amado!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nostalgia, Eduardo Hansch

terça-feira, 15 de maio de 2007

Liberte-se!

A solução dos problemas
está no âmago de todos os anseios
dos mortais.
Está em mim, em ti, em você,
todas as respostas que procuramos nós
encontramos na lacuna mais cavada,
no buraco mais profundo,
exatamente aquilo que queremos
e o que pensamos ser,
um objeto anacrônico imerso na
infelicidade de não estar no tempo
e no espaço da resposta
que não quer ser encontrada.
Mas se queremos mesmo ser
aquilo que de fato não é
vivamos agora a mais bela e constante
mutação que poderíamos suportar,
não prescindível de nada,
deveras impenetrável.
Se exigimos de fato ser
as coisas que desejamos viver
naquele dia que não chega,
retiremos dias e anos
desse tempo pródigo de amor
e carinho imediatos,
sentimentalidades que pretendem
de você e de mim e de ti qualquer coisa
melhor que outrora,
coisa própria de si, sem dono
sem espaço definido
para seu âmago se acomodar
e sem tempo,
sem tempo para se curvar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Um céu numa flor silvestre: a beleza em todas as coisas, Rubem Alves

Hurt, Jonnhy Cash

domingo, 6 de maio de 2007

Paisagem

Entre as pedras via-se o retrato escuro da noite.
A estrela, onisciente e solitária, testemunhava
todos os momentos daquela nostalgia sem fim.

Para todo lado silêncio, calmaria surreral e constante.
Nada, absolutamente nada para mitigar o ópio
de se deliciar com o prazer dessa contemplação.

Se fui eu quem trouxe o espírito terno da concórdia
imerso nesse habitat natural dos poetas - o coração
sentido por aves, peixes, sentido por anjos e sereias,

Quero ser para todo o sempre uma espécie de locomotiva
da felicidade, que traz à tona todos esses sentimentos de
ternura e dor, contemplação e ódio - não aflorados até então.

Nas pedras residia ainda o espírito sincero da simplicidade
proveniente daquela singular estrela, formosa fonte de luz
capaz de enfeitiçar todas as coisas e a todos ao seu redor.

O silêncio - interrompido pela locomotiva de sentimentos agora
já aflorados, é substituído por palavras doces, espasmos de
alegria que a todos contagia, com sorrisos de algodão no céu!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Put Your Lights On, Santana & Everlast

sábado, 28 de abril de 2007

Alguns sim, alguns também

Se você me pergunta
o que não tem resposta
eu te respondo
a pergunta e alguns
dos seus questionamentos
e também alguns
dos seus questionamentos
eu não te respondo
se você não me pergunta
o que tem resposta.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

O Portão, Erasmo Carlos & Paula Toller

terça-feira, 24 de abril de 2007

Batalha Contra a Corrente

Pode chegar o momento
em que todos os deuses
conspiram contra você!

Pode chegar o dia quando
somente tentar resolver
já não é mais o bastante!

Pode chegar a hora em que
toda experiência acumulada
não significa vantagem sua!

Nesses momentos, ou você
pede anistia a Deus e reza,
ou enfrenta logo o mau, sem
sem medo de ser derrotado.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Get Rhythm, Jonnhy Cash

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Em tempo!

É chegada a hora
de enrolar publicamente
o tapete das etiquetas;
largar-se sujo na sarjeta
para manter na mente
tudo que adora.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O que tinha que ser, Elis Regina & Tom Jobim

domingo, 15 de abril de 2007

Casa de Papel

Ai, casa de papel verde-musgo,
cheia de esmeraldas pardas e
exatas, leva teu encosto para o
mundo deste tosco, esfrega-lhe
o tapete nesse engodo louco, de
cheirinho novo, tudo simétrico e
translúcido, imerso nas linhas
geométricas do crepúsculo, dia
em seu termo final, assassinato
de raios solares, pôr-do-sol sem
condizer à universalidade nem
denominado pela raiz da palavra.

Ai, casa de papel cheia de gente
imaginária, sem janelas, portas ou
privada, sem teto pra esconder
nem paredes pra separar, locais
pra defecar, piscinas pra pular,
ergue-lhes um mundo novo com
idéias e princípios, começo de um
novo hospício, ataca-lhes a praga
e empurra ao precipício tudo o que
me disse anteontem, que não tinha
esquecido de lembrar para sempre
onde na casa de papel está o sol.

Ai, casa de papel que se derrete
em gotas de sorvete de paçoca,
quero ser da roça e meus pés o
chão tocar, me lambuzar imerso
em jabuticabas maduras e lama
até os joelhos, eternamente sujo
de coisas limpas, para quando eu
olhar no espelho ser de novo uma
criança pura, longe da censura de
olhares cristãos e pudorosos, iguais
ao nosso coração, empanturrado de
carinho fértil e carentes de emoção.

Ai, casa de papel mais bonita do

mundo, se fosse um moribundo não
me mudava hoje pra essa casa de
idéias holísticas, atéias, anárquicas,
espaço novo da utopia revolucionária
em lindos versos coloridos e sinfonia

musical e quadros de Picasso, dona
de lágrimas insípidas e abundantes
derramadas por formosas sereias nuas
e pensantes, num universo singular e
delirante, que cospe na alma prudente
para se tornar seu mais lindo amante.

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

A Canção da Vida, Mário Quintana

quinta-feira, 22 de março de 2007

Complacência

Vozes que esbravejam
não dizem quase nada
imersos nesse martírio
de pensar a totalidade
sem ser a todo instante
momentos singelos de
angústia desmistificada
pelo silêncio inabalável.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Dindi, Astrud Gilberto & Tom Jobim

sexta-feira, 16 de março de 2007

Saudades...

Se me pudessem exprimir
e dar azo a múltiplas dores
quanto de saudades hão
de finalmente lastimar e
deixar de amar somente
por não estar presente?

E se já não se pode sentir
com coração calejado de
dor e alento, sensação oca,
póstuma de afeto sincero,
para que querer um ausente
se chega de novo o amante?

Saudade nenhuma da sobriedade!
Saudade nenhuma da ficção!
Saudades, só de sentir saudades!

E se é para sofrer, de ira e ódio
prefiro de novo a contemplação
que de tão sincera e puritana
é taxada de arrogante e podre
por ser, assim, tão contraditória
e ao mesmo tempo fundamental.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Vagamundo, Eduardo Galeano

segunda-feira, 12 de março de 2007

Nostalgia

Ah!, madrugada
que tarda o dia
para salvar
a noite

vozes, silêncio
música de
embriagar
a alma

e a aurora no céu
testemunha
os momentos
tensos

de amar o nada
assim
como se ele
existisse

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Gold for the price of silver, Kings of Convinience

sábado, 10 de março de 2007

Cara ou coroa?

Será hoje o dia de fazer
aquilo tudo que tinha
que fazer, aquilo tudo
que tinha que dizer,
que tinha que sentir,
que tinha que...

Será hoje o dia de lutar
contra aquilo que tinha
que lutar, aquilo tudo
que tinha que brigar,
que tinha de xingar,
que tinha que...

Será hoje o dia de viver
naquilo tudo que tinha
que viver, naquilo tudo
que tinha que fazer,
que tinha que lutar,
que tinha que...

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Give me the night, George Benson

terça-feira, 6 de março de 2007

De tempo em tempo

Tempo, tempo
tão grande e lento,
me deixa sonolento
só de não passar

assim, tão devagarzinho
que até um passarinho
nele depressa sente
a falta de voar

no tempo, que se propaga
no vento, sem passatempo
nesse relógio lento,
para dissimular

todo sentimento
de impotência e dor, de
ver em cacos meu amor
dilacerado no ar

Seria contratempo
jurar, em seu alento,
o padecimento
do verbo amar

dar tempo ao tempo
nesse momento,
é a melhor solução
para o tempo não fechar

porque se quer mesmo
um tempo, terá que me
dizer, a um só tempo
que não quer mais esperar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Ao som do mar e à luz do céu profundo, Nelson Motta

Sobre o Tempo, Nenhum de Nós

sexta-feira, 2 de março de 2007

Inominado

Claros como a luz estão
nosso passos, ternos e
rítmicos, passado tudo
o que vimos e sentimos
em um misto de ódio e
contemplação e medo e
desejos, emoção certa,
incompleta e efêmera,
porém profunda, atroz
sincera e insubstituível.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Inútil Paisagem, Tom Jobim

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Amor Maior

Tu és imperiosa da noite,
que quando emerge
aos ventos irradia luz
induz contemplação.

Se caminhar na rua
um olhar, censura.
Se falar, ternura
no andar, fartura
e na alma o luar!


Amam-te, como astros
fossem também, mesmo
que não sejam ninguém
quando seres humanos.

Naquele sentimento,
tu és soberana em
aparecer no céu e
as nódoas arrefecer.

Se quisesse descer e
aos mortais se juntar
deixaria de brilhar e
o amarelo escurecer.

Mas tu não queres ser
mais do que tu já és:
a maior paixão no céu;
o grande amor dos poetas.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera


domingo, 28 de janeiro de 2007

Liberdade

Vez por outra nos percebemos inseguros,
tristes em não poder mudar um passado
desastrado, paralisados em mente e alma
e imersos numa devassidão permanente.

Consideramo-nos parte de um lixo fétido
e podre, incapazes de impedir sobrestar
o ritmo espontâneo de desenvolvimento
das habilidades mentais do ser humano.

Sim, somos a multiplicação de conceitos
e aforismos desassociados da realidade
romântica criada por nossos antepassados
e por nós aniquilada, como nuvem cósmica.

Somos também desavergonhados e feios,
quando nem nossa reputação poupamos de
enxovalhos desproporcionais à veracidade
outrora substancial, não exatamente agora.

Sobretudo, somos mesquinhos e ignorantes em
tratarmos o que de fato existe numa ilusão
constante e preponderante, sem dar azo à
verdade substancial que não nos rodeia.

Tratamos como bom aquilo que nos apetece
e como mau aquilo que nos ojeriza, ao passo
que não nos acontece saber o que agrada a
quem não nos conhece, ou quem não sabemos.

Delimitamos nosso pensar por linhas tortuosas e
sem fundamento social, distorcendo a verdade
e trazendo para nós a comoção moral de deuses
surreais de relação pérfida para com os mortais.

Brindemos as crianças e adultos espontâneos,
de paladar sincero e palavreado universal.
Esqueçamos os homens de meias-palavras que
escondem a vida em suspensórios antiquados.

Brindemos o luar eternizado por reais juras de
amor que jamais serão extraviadas ao limbo
de não mais querer aqueles que não têm mais.
Não brindemos a Pátria ou suas instituições.

Tratemos de valorizar o que de fato pode existir
ou existe, longe ou não dos olhos, perto ou não
do coração, para que não retardemos a sensação,
por culpa ou não, de livremente fugir deste lugar.

Não os enfrentemos por migalhas de sentimentos
pulverizados em pseudo-monopólios, que brindam
- esses sim - a hipocrisia d'uma serventia insalubre.
Sejamos nós noutros mesmos, eterna contemplação.

Para que saibam que nossa existência está muito
além desses imensos muros altos que sitiam nossa
liberdade: estamos e aqui vivemos atrás daquilo que
persiste, numa existência latente, robusta e infinita.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Clube da Lua (Luna de Avellaneda)
Argentina-Espanha, 2004
Direção: Juan José Campanella

sábado, 27 de janeiro de 2007

Sensação

Resta acima de tudo
essa sensação de ternura
essa sincera compaixão
esse carinho interminável

vindos de dentro, do fundo
oriundo da mistura de nós e
de você, de quando nos temos
ou até quando não nos vemos

uma ternura interminável
um carinho inestimável
uma compaixão indelével
que desvira sensação

quando deixa a compaixão
e explode de carinho - todo
carinho restante e bastante
- posto num único momento.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O Haver, Vinícius de Moraes

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Queria muito dizer

Queria muito dizer,
que a vida não é triste não!
Vai de lado, vira curva,
segue repleta de emoção.

Queria muito dizer,
que nada é maçada!
Chora e pia - espia ela
fugindo pela estrada.

Queria muito dizer
que em meu ser
tudo está fadado
a ser amado, um
resultado, um ser
contabilizado.

Queria muito dizer
que por prazer quero
tudo ao meu lado,
sincronizado, um
bem não pardo,
deveras sensibilizado.

Queria muito dizer
que por amor
faço tudo sem pudor
e por temor
não faço nada.

Queria muito dizer
que com você, faço
tudo por querer
e sem lhe ter
não faço nada.

Queria muito dizer
que nessa vida não
há padrão, só o tesão
de ser vivida.

Queria muito dizer
sem precisar dizer
que amo muito, e
amiúde, percebo.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Is it a crime, Sade

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Viver poesia...

Viver poesia
é nadar no mar
despido
é comemorar
amigo
é silenciar
consigo.

O poeta se alimenta
de poesia, numa
adorável fantasia
d'ela querer, hoje
e todo dia, seu
conselho matinal.

Poderiam todos os velhacos
serem trocados por belas e
formosas poetisas, de amar
nesse mar de contemplação.

Enquanto a hora não chega
mantemo-nos fiel à poesia
fruto desse afeto múltiplo
dado por nós, em cortesia.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O Poeta, Vinícius de Moraes

sábado, 20 de janeiro de 2007

Predileção tácita

Assim como uma alma penada
caminhamos por corações
alheios, nesta longa estrada
de infindáveis sensações.

Tal como beijamos meretrizes
também amamos e afagamos
fadas, que por nossas raízes
seriam nossas mães, amadas.

Nosso dever pode ser suturar
restos de corações, petrificados
por lágrimas de incompreensão

ou pode ser sentir e aniquilar
páginas e páginas de um romance
que nunca devia ter existido.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

"You've got such a pretty smile
It's a shame the things you hide behind it
Let 'em go, give it up, for a while
Let 'em free and we will both go find it"

I know, Jude

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Soneto de Perdição

Onde estão, Senhores
onde estão os Amores
de amar e se dar
de ver a terra rodar?

Onde estão, Profetas
todos os Poetas
que me fazem sonhar
de novo m'apaixonar?

Será que partiram
todos à perdição
de não mais amar?

Será mesmo que partiram
em cacos, meu coração
espatifado no ar?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco (1825-1890)

domingo, 7 de janeiro de 2007

Libertação

Não precisa mais almejado!
Próprio por quisto, sozinho
por querido, perder seus dias
em não pensar mais nisto.

Aos que a graça seja,
desgraça se construa.
Aos que a soberba possua,
conceba-lhes a morte.

E de tudo o mais, que
não conduza, para sua
própria liberdade,

sê inteiro, daquilo tudo que
lhe traduza, e não mais
despreze sua identidade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Quero ignorado, Fernando Pessoa

O mundo é um moinho, Cartola

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

Solidão pretérita

Recolho-me à minha insuportável bolha
de não amar a todos, ou de não amar,
para celebrar o estado perfeito
da magnificência perante tudo.

As nuvens no céu, parcas e lotadas,
carregam todas as máculas pretéritas
:somos de novo deuses e magos e mestres,
autônomos de um presente, que não mais será!

E dentro de tão linda (e hermética!) bolha,
tenho comigo todos os sonhos do mundo,
os quais terei a árdua labuta
de decifrá-los e colocá-los presente.

Serão (serei?) de novo um conjugado
de idéias esparsas, de caráter epistemológico?
Ou seremos tudo e todos - e nós, convosco,
um só aglomerado de infindáveis sensações?

O passado foi e se mostrou inócuo,
carente de realizações consistentes;
resta-me um futuro que não existe
e um presente que é meu, só meu!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Eu te amo, Chico Buarque e Daniela Mercury (1993)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Um nada romântico

Ânimos exaltados, inanimados
voltas retangulares, milhares voltas
sensações de exaspero singular.
Estou de novo limpo, como quem
acordou amanhã, ou visitou os avós
no interior. De novo me quero bem,
como quem se cerca por protetor
solar, ou quando começa a amar,
paixão efêmera de alguém. Sinto-me
expressamente cuspido do limbo

renovado, com pudor adorado
olhar distante, prudente, enviesado
amante novamente de coisas tolas
ou consistentes ou sinceras, para que
possam também amar e querer bem
mesmo que não tenham ninguém para
amar e saturar de beijos atemporais e
carinhos anormais, justamente agora.

Expelido pela culatra, numa mistura de
sobras e cistos que determinam a vida
como uma ordem que maltrata o elo
entre corações pedintes de si e sós
por eles mesmos, acabo por ser
esse fétido engodo desproporcional
à dilatação espacial forçadamente
colocada em banho-maria, à margem.
Mas, quem será que tem tempo de poder
querer escolher carinhos e beijos e
lágrima e sensações a toda hora?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Nothing else matters, Metallica

domingo, 24 de dezembro de 2006

Mensagem

Enquanto perdurar o mar de felicidades,
não tenha dúvidas, minha pequenina
:seja sempre esta doce e ágil menina,
de cabelos grossos e odor insuperável.
Deram-lhe o mundo e em suas mãos
ele estará bem cuidado, adorável, e
amado demais, dilacerado continuará
nosso coração enquanto nossa nau
não atracar em algum porto seguro,
bem pertinho da multidão, para que
vejam e saibam e não se esqueçam
- e todos eles - que o amor persiste.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

As rosas não falam, Cartola

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Futebol

Vou repetir de novo,
putas, meretrizes,
donas-de-casa, cortesãs,
noivas, feministas,
anãs, famigeradas,
atrizes e cadelas,

Não temos medo de viver
intensamente
milhares e milhares e milhares
de paixões e amores e aliterações
cacofônicas e sem sentido.
Às favas com a razão mesmo,
não nos importamos.

Tampouco receamos vocês
beijando nossa nuca
com olhar apaixonado
- que adoramos.
E não esperamos que entendam.

Só queremos de vocês
o perene comunicado,
nada mais que isso.
Queremos muito que digam
sem meias-palavras,
olhando nos nossos olhos:
"Adoro ser menos importante
que o Futebol!"

Isso e somente isso é necessário
para suplantar todas as juras,
todas as promessas que vocês
nos obrigaram - sim, obrigaram -
a fazer.

Queremos que aceitem,
a nossa subordinação,
a nossa fidelidade,
a nossa devoção
pelo Futebol.

Queremos que entendam
que jogar, olhar, torçer,
calcular, vaiar, xingar,
chorar e até matar
são atitudes simples
quando tratamos de Futebol.

E tão cedo percebam, compreendam
e bem queiram (também) nosso Futebol,
desnecessário termos de divórcio,
separações consensuais, litigiosas,
partilhas de bens (entregamos tudo!).

E aceitamos tudo, não nos importamos com nada.
O resto fazemos em um outro dia!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Vasco da Gama / Figueirense Futebol Clube

domingo, 17 de dezembro de 2006

Andarilho

tem dias
em que a pessoa
segue o rumo

vai prum lado
e a outra
para outro lado

a estrada é a mesma.

um anda
para frente
o outro
para trás

qual deles
somos nós?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Alma do Mundo, Suzanna Tamaro

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

A Flecha e a Estrela

Um coração ferido tem sempre
uma flecha e uma estrela no coração.

A flecha tem nome,
estado civil, sobrenome,
endereço certo
e profissão.

A estrela tem tudo isso,
mas só vêem seu codinome
e que perdeu
a razão.

A flecha é soberana,
manda e
desmanda
no coração.

A estrela é solitária,
vive a
divertir
o tabelião.

A flecha machuca por fora.
Num movimento rude,
transforma coronárias
em sangue.

A estrela machuca por dentro.
Assola veias e artérias e
nervos sem derramar
uma gota sequer.

A flecha não depende da estrela para agir.
Por si mesma invade espaço alheio -
assalta terços, princípios, máculas
- a machucar.

A estrela depende da flecha para brilhar.
Por si só não consegue arrogar-se
afável, quista, querida e desejada
para cotejar.

A flecha e a estrela interagem.
A reinar no céu de paixões,
a estrela sorrateiramente sucumbe
e dá azo à devassidão da flecha.

Quisera alguém existir somente estrelas,
mas sempre haverá flechas,
implacáveis e desumanas,
dispostas ao nosso alento desanimar.

Então, de nada adiantará cultivar somente estrelas,
lânguidas e vulneráveis, porque
as flechas se impõem, humilham
nosso capricho de amar e de ser amado.

Temos que cultivá-las, certamente,
hoje e para todo sempre,
mas temos também que combater as flechas,
essas mesmas, acostumadas a machucar.

Lutar e lutar e lutar contra flechas
é mais que necessário a todos aqueles
que desejam manter suas estrelas brilhando;
é uma ordem, categórica.

Porque quanto mais alvos as flechas acertarem,
menos estrelas no céu, tão lindo e belo
que seria injusto e muito triste não mais existir,
todos os dias, dentro do nosso coração.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Desalento

Às vezes estamos assim mesmo
imersos em caducidade crônica
insinuante de passado bem vivido
profeta de futuro desmantelado

chorando mágoas imaginárias
de causas que pereceram
no limbo do esquecimento
e que não voltam mais

ficam pra trás, por bem
e não voltam, não voltam
para nós, que ficamos
com o retrocesso

de restar onde se ficou
inteiramente esgotados
imobilizados por pernas e
braços e órgãos e tendões

inertes em querer se mover
para poder repetidamente
amar e amar e amar
até o desalento eterno

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Modinha (de Tom Jobim), na voz de Olívia Bryngton

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Carinho

Vai-te afago
e nua, e crua
pela rua de carícias
a rodar

Vai-te pesos, e dores
e medidas,
por nuvens cósmicas
a voar

Vai-te chão, e medos
que nessas mãos
quiçá a alma
encostarás

Vai-te antes
que vamos
depois
todos nós

desatar os nós
que atam

essas mãos
que afagam

Rodrigo Sluminsky




+++ Etecetera

A Really Good Cloak, Mark Isham

domingo, 10 de dezembro de 2006

Fantasia

Chega o fim de tarde
e ele vem, como quem
passeia na passarela
das personalidades

e vem de longe, do fundo
sem explicar o porquê
não diz onde esteve
mas permanece

sentado à beira da realidade
conversa com a verdade
flerta com a ilusão
e decide enviasado

agir, definitivamente
mas sem titubear
e deixar claro que
é maduro suficiente

para manter na mente
aquilo que é
e o que pretende ser
se um diz crescer

mas quando emerge
lembra que é apenas
um pensamento bobo
nômade e inseguro

acaba por se expressar
da forma mais nociva
à perpetuação da espécie
:a não expressão!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Just the way you are, Barry White

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Efêmero

Chove, não molha.
Chove, não molha.
Molha, e seca rápido.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Poema Sujo (1976), Ferreira Gullar

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Tratado sobre a Verdade

Quero logo ouví-la!
Diga-me logo a verdade
sem meias-palavras
sem maçada, sem firula.

Quero tudo o que pensa!
Se é que não pensa em
contar tudo só depois de
veiculado na imprensa.

Nem sei o quanto é difícil
para você e para muitos
utilizarem-se da verdade
para destoar de moribundos.

Nem sei se bem sabem
distinguir a verdade,
de mentir à vida ou de ser
infiel à sinceridade.

Pois lhes digo eu:
a verdade só não é mentira
quando dita por intermédio
do olhar que transmitira

:a verdade, que inexistira,
quando em quaisquer momentos
algum tipo de mentira
burlasse sentimentos

:torna-se mentira,
ainda que sincera
porque omitira
alguma quimera.

A verdade nasce
para ser sempre verdade,
e quando não mais o é,
a verdade morre

e dá lugar não mais
à qualidade de ser,
mas à triste possibilidade
de não mais ser,

como assim não é
:a mentira
ainda que necessária,
como a que transvestira,

com a falsidade
de seus gestos,
e a inverdade
de seus beijos.

A mentira será sempre
uma coleção de objetos
de não-ser, ainda que seja
quase que totalmente verdade.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

A vida como ela é..., Nelson Rodrigues

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Tamanho do (seu) Amor

Você passa anos
vivendo e coletando
bons momentos
:experimentando

Inimagináveis situações
que agora carecem
de explicações
:aborrecimento

Mas você cresceu
destituiu-se de aforismos
incrementou o amor
encheu-se de altruísmos

que o tornaram
:você
uma alma singular
dentre milhares

E quem mais deterá
a prerrogativa
de determinar
o tamanho do seu amor?

Senão exatamente você,
aquele mesmo ser
especialmente invulgar
simplesmente apaixonante

E para que mensurar
quanto de amor tem
se o amor
não acaba nunca?

Será que determinar
agora ou para sempre
os amados de angariar
o seu amor

não significaria
furtar os não amados
de um momento receber
o mesmo amor?

Será aprazado dizer
que é certo amar
isto e não amar
aquilo?

Você bem sabe
que muito aprendeu;
parecerá
que esqueceu

se não distribuir
espontaneamente
sua reserva aleatória
de amor

:explodirá
imediatamente
numa distribuição compulsória
do seu amor.


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

For your babies, Simply Red


segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Novo de novo!

Quase que do tamanho do universo
está seu coração quando imerso
na infinita capacidade de lutar
contra a infinita vontade de amar;

quase que da cor das violetas,

delineando inúmeras facetas,
estão suas tristes e arredondadas pálbebras,
fatigadas de derramar tantas e tantas lágrimas;

e quase que totalmente consumidas

estão suas veias e artérias, cálidas
de sangue, ardor, loucura e movimento
prontas para o novo e tão esperado momento.

Por que não, então, escorraçar o quase,
que estava fadado a ser inteiro, para
arquitetar algo que não a separa
da chance de inaugurar uma nova fase?

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Free Hugs

All the Same, Sick Puppies

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Efêmera contemplação quotidiana

Uma árvore nua
à espera do sol
dos pássaros, da água
da lua

cercada de homens
mulheres e crianças
cheios de esperanças
carentes que são

de um sentimento puro
semblante da paz
do bonito, inverso
do escuro

que apavora homens
mulheres e crianças
e suas lembranças
com a sombra se vão

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

domingo, 15 de outubro de 2006

Eu meio Você

Eu
Tu
Nós
de novo

Eu
Ele, Ela
Novo
de novo

Eu
comigo
fim

Eu
contigo
meio

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Life's a beach, Touch and Go

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Quero que...

Quero que você esqueça
aquelas palavras doces
que ficaram na sua mente
por receio

Quero que você venha
até onde estarei
e siga meus passos
na areia

Quero que me ame
sem a velha prudência
que entedia
nosso romance

Quero que me possua
me maltrate
com esse corpo
que eu sempre quis

Quero que lute
contra tudo e
contra todos
por mim

Quero que escravize
meus sentimentos
de caridade e
minha gentileza

Quero de você
um ódio descomunal
uma mistura de ira
e pena

Quero que você difame
minhas virtudes
e apodreça
a sensação póstuma

Quero que você seja
minha prostituta
e me encante
por dinheiro

Quero de você
um não-amor
uma ausência completa
de sentimento

Quero que usurpe minhas idéias
e me diga, sem lágrimas,
que tudo o que fez
foi por amor.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Doce Ilusão

Todo o fim
determinado
acaba
barrado

pelos hipócritas
de plantão.

Aquilo
que sonhava
vira
miragem

de uma viagem
que acabou.

Se ainda pensa
em viver
fora
da gaiola,

despeça-se
das asas
seu lugar
é no chão.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Iconoclasta

De todas as maneiras
você tenta explicar
a intragável sensação
que já não resta mais.

Se esconde a verdade
ou é fiel à sinceridade,
qual canto da emoção
deixará mais saudades?

Além do mais, quem se importa
com a importância
que coisas do coração
têm para as pessoas?

Mais vale dilapidar a alma,
por completo e sem deixar
suspiros, para que não haja
resquício de contemplação.

Porque se é para suspirar,
de paixão ou não, que o faça
longe de coisas do coração,
para restar incólume.

Só não entendo
se você não soube
explicar
algo tão simples,

ou se a simplicidade,
iconoclasta,
é penosa demais
para algumas pessoas.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Painter song, Norah Jones

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Errante

Nem tanto o céu, nem tanto a terra.
Um pouco de carinho no coração,
um pouco de vida na emoção.

Pulando obstáculos,
contando carneirinhos.

Ao lado da dor, o destemor
de ser um efêmero vencedor.
Perto do mar, um colchão enorme
de beijos e lágrimas de amar.

Se quando chegar,

não temos a mínima idéia,
mas se quando não chegar,
mudamos de lugar!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

A mais bonita, Bebel Gilberto & Chico Buarque

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Idem

Vai lá você
de novo à mercê
daquilo que não vê
mas que deve esquecer

da porreta alegria
que vira fantasia
mais ou menos dia
quando não compreendia

porque chega de emoção
voltou o tempo da tensão
angústia no coração
silêncio na multidão

e não me venha com saudade
sentimento efêmero e sem idade
abandone logo essa cidade
amanhã é dia de maldade

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Acontece, Cartola

Mais um na multidão, Erasmo Carlos e Marisa Monte

domingo, 6 de agosto de 2006

Desnecessário (melhor não!)

Ainda que te diga,
que passe horas a fio
explicando o sublime,
como entenderás?

Ainda que entendas,
querida, mesmo que
saibas minha contemplação,
de que modo respeitarás?

E ainda que respeites
e entendas o motivo
da minha razão,
razão do meu viver,

mesmo que saibas
em minúcias o que
hei de contar,
por que diachos escutar?

Tu és dona de ti,
dona da passarela.
Fazes o que sabes melhor
- e sabes muito.

Sei que há um porquê
por detrás dessa tua
dúvida fulgás,

mas não me peças para te dizer
o que não queres ouvir
ou não tens como suportar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera


O amante, Marguerite Duras.

sábado, 29 de julho de 2006

Cores, corações e colorações

Amo preto e
branco e

Vermelho
Laranja
Amarelo
Verde
Azul
Anil

Preto, amarelo,
branco, marrom.

Preto no escuro
branco no gelo,

margaridas e

violetas
contra rosas.


Vermelho no
amor, no ardor,

dor no temor,
no preto do
não branco,
da paz.

Como laranja

cheiro rosa.
Luto branco
acabo roxo.
Quero verde
vira cinza.

Sou azul,
de céu
e mar,

translúcido nas
lágrimas
de amar,


mas tem dias
que amarelo
mesmo.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Aquarela, Toquinho

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Amada Minha

Que saudade dos dias, da aurora,
dos beijos apaixonados de outrora,
do carinho recíproco, demora
na passagem do tempo, lá fora.

Que vontade de ter, senhora,
o amor que não têm, embora
todos queiram a toda hora,
viver o que é de agora.

Que faço se você ignora
a dor que sufoca, e implora
se a saudade cessar, melhora
mas sei que ainda me adora.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

The Royal Tenebaums (EUA, 2001)
Direção: Wes Anderson
Elenco: Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Luke Wilson, Owen Wilson, Danny Glover, Bill Murray, Alec Baldwin (voice)

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Angústia

Quem se apodera
amiúde dos meus sensos
que nem com lenços
obsta a quimera?

O que persiste
na mente insana
que nem a gana
nela desiste?

Por que temer
sentido novo
que por estorvo
nos faz tremer?

Quem é você,
que se apodera,
amiúde dos meus terços,
que nem quimera?

O que me chama
e que insiste
na mente insana
e não desiste?

Por que correr
desse estorvo
que nem com lenços
posso esconder?

Quem é você
Por que me quer
O que te fiz

Por que me diz
mal-me-quer
Quem é você?


Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

I Know, Jude

Angústia, Graciliamos Ramos

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Desmazelo

Desmazelo quer dizer
falta de zelo
por tudo que deveria
ser zelado.

Para ser desgosto
precisa não sentir o gosto
do que não tem porque
ser gelado.

Para ser desagrado
tem que ser rude
na falta de
cuidado.

Para ser desleixo
há de ser
negligente
com o bem amado.

Para ser displicente
precisa querer
ser também indiferente
ou desinteressado.

Na verdade é um total
descontentamento,
uma mistura de omissão
com falta de perdão,

de dissabor
com falta de amor,
que pelo meu léxico
significam a mesma coisa.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Sem contenção, Bebel Gilberto

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Andarilho

O mesmo passo:
errante,
contíguo,
delirante,

que ruma desvirtuado,
de face monocromática,
porém sem nunca mais
voltar atrás.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Mariana, Yamandú Costa

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Diálogo dos Anjos

- Bom dia - disse o Senhor da barba rala e olhar enviesado.

Percebi dele certa angústia no ar, própria das pessoas sem situação definida. Quis perguntar-lhe certas coisas, porém receoso não o fiz. Parecia-me estranho um senhor daquela idade com tamanha insegurança pessoal, ao mesmo aparente.

- Bom dia, Senhor - disse-lhe num instante especialmente impróprio, quando minhas palavras misturavam-se a pensamentos incautos e despropositados. Nesse momento um bom percentual de acontecimentos rodeavam a lembrança de minha pouca experiência mundana, quiçá mais que pudesse suportar. Quem dirá sobre as fantasias daquele senhor, aparentando a mais sincera humildade por mim já admirada, depois de já atrofiadas as prepotências terrenas provenientes de anseios indecorosos e posses imbecis. Deve ser mesmo na velhice que percebemos os porquês de tanta frustração pessoal no mundo, embora pareça-me perfeitamente compreensível não percebê-los antes. Somos constantemente bombardeados por informações inúteis e desprovidas de caráter epistemológico suficiente à sobrevivência mental de um herege. Desideratos são transformados em devaneios contra nossa vontade, e com o passar do tempo os devaneios acabam se tornando sonhos de adolescentes e pensamentos de viúvas e memórias de cárceres e ilusões de tetraplégicos e ironias de milionários. Em um momento determinado, não sei quando, mas acho que na velhice saberei, nesse exato momento saberemos plenamente os motivos pelos quais alguns fatos nos tornaram menos virtuosos, saberemos o dia em que pecamos de modo mais irreversível.

- Meu jovem, eu não devia estar falando com você, agora. Falar com uma pessoa deveria ser materialmente impossível. Sou algo que não se define, se é que sou alguma coisa. Eu deveria estar morto, decapitado, deserdado de meu corpo, e assim despido de princípios, de idéias putrificadas há anos pela realidade a que nos submetemos, rodeados de verdades, se é que somos vistos aqui por baixo e se, por ventura, há mesmo verdades nessa realidade insípida.

Devo confessar que meus ânimos debandaram e senti uma certa tranqüilidade nas mansas palavras daquele senhor de olhos aprofundados pelo tempo. De certo modo concordei com os pontos que pude compreender em sua pequena oratória surreal - senão perfeitamente consciente e deveras inteligível ao menos de uma devoção maravilhosa.

- O Senhor me desculpe pela desfaçatez, mas o tino censura minha liberdade e sinaliza minha partida, pois não é muito seguro conversar com estranhos!

Nesse momento agradeci-lhe os cumprimentos, acelerei os passos e arrefeci toda a curiosidade a que fui submetido pelo meu inconsciente. Não hesitei um momento sequer em dizer adeus àquele senhor, porém a redenção de não perguntar-lhe os porquês que ele guardava no coração levará uma vida inteira para se concretizar.

Rodrigo Sluminsky

domingo, 4 de junho de 2006

Homônimos

Homônimo de mim,
sou quem nunca fui
e amo a conveniência,
que me desatina.

Se quisesse explicar,
fá-lo-ia em prosa,
porque poesia
é dona de mim.

Pedras no lago
de um mundo avoado;
pensamentos em ebulição.

Palavras na mente
de uma cabeça doente;
sem solução.

Tudo para dizer
o indizível
:meu coração chora!

Rodrigo morreu;
sobrou Francisco,
que sou eu,
quando não Rodrigo.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Lenços de papel.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Plágio

(...)

Tem certos dias
em que eu penso
em minha vida,

e sinto assim
todo meu mundo
desabar.

É que parece
que acontece
de repente,

viver assim
ser ter um fim
e nem amar.

Igual a como
quando eu penso
em meu mundo,

sem ninguém,
sem ser alguém
pra se notar.

Aí me dá
uma inveja
de ser gente,

gente amada
que sempre tem
com quem contar.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Gente Humilde, Chico Buarque

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Homônimos (short version)

Homônimos (short version)

Rodrigo morreu;
sobrou Francisco,
que sou eu,
quando não Rodrigo.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

O homem que copiava
Brasil, 2003.
Direção e Roteiro: Jorge Furtado
Elenco: Lázaro Ramos, Leandra Leal, Pedro Cardoso e Luana Piovani.

domingo, 21 de maio de 2006

Memórias

Todo o conhecimento do mundo
é insuficiente para expressar
o conjunto dos nossos juízos
perante as verdades do universo.

Somos deuses transvestidos de titãs,
lutando pela causa errada,
esbravejando princípios antiquados,
em lugares que não nos pertencem.

Concomitante somos formigas arrogantes,
instigando dúvidas vulgares,
respondendo questões elementares,
em seara que não nos convém.

Matutos que somos, porém,
vemos o fim do túnel
com uma condescendência
que surpreende até profetas.


Só que à frente o incerto predomina.
A casualidade nos faz desdenhar
valores incomensuráveis
outrora para nós imutáveis.

Muito mais precoces
que noticiam.
Muito mais patéticos
que parecemos.

E no sagrado ínterim, quando temos escolhas,
parecemos preferir os círculos aristocráticos
das amizades redundantes
ao invés de verdadeiras tertúlias dipsomaníacas,

que de tanto instigar-nos ao suicídio
de renunciar princípios inalienáveis,
faz-nos preferir trocar de amigos
a deixar o coração sobreviver.

Pasmem, a unidade nos engrandece,
transforma-nos em ícones de um tempo,
que foi sem mesmo a gente notar,

e que nos unirá sem a gente querer.

Resta que depois dos píncaros da fadiga
há um mar de lágrimas contingente,
para o qual nem nós sabemos
se o dia acontecerá novamente.

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Vinícius, 2005
Documentário sobre Vinícius de Moraes
Direção: Miguel Faria Jr.
Roteiro: Miguel Faria Jr. e Diana Vasconcellos, com colaboração de Eucanaã Ferraz
Produção: Miguel Faria Jr. e Susana Moraes
Música: Luís Cláudio Ramos

quarta-feira, 26 de abril de 2006

O Poeta e o Amor

Poesia,
escrita por poeta
lida por poetisa
sentida por profeta,

que faz juras de amor,
antes mesmo de tê-la sentido,
e na poema lido
prevê a famigerada dor.

Je t'aime, je ne t'aime pas,
who cares?

Amor é qualquer coisa do destino,
presente, passado,
e não precisa de decassílabo
para ser;

materialmente
inteligível,
porém intangível
para nele viver.

Dar-mo-ias?
Poesia, amo;
Amor,
nem tanto!

Rodrigo Sluminsky



+++ Etecetera

Autopsicografia, Fernando Pessoa.

Castro Alves do Brasil, Pablo Neruda.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

Relógio

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão

Oswald de Andrade



+++ Etecetera

Releituras de Oswald de Andrade

Manifesto Antropofágico (1928)

segunda-feira, 27 de março de 2006

Ser Humano

Sou distinto,
leve, esquisito,
de pensar efêmero,
humor passageiro.

Eu sou não o que quero,
deveras o que penso;
sou o que sou,
não o que devia sê-lo.

Não sou comum,
embora devesse;
não sou regular,
embora quisesse.

Sou cara de idéias emprestadas,
de princípios misturados,
analizados, renovados,
de padrão singular.

Minha distinção
não está na nobreza,
mas na beleza
do coração.

Meu descaso
não é com a luxúria,
mas com a ternura
em escassez.

Por isso,
choro sem lágrimas,
sorrio sem lábios,
beijo sem língua.

E não sou assim porque quero,
eu sou, e não há nada
que o mundo possa fazer
para mudar-me.

Na verdade,
o mundo é que devia
ser mudado
por mim.


Mas o problema do meu agir
é o descomunal anseio
de tornar o comum
incomum,

a vontade incessante
de fazer coisas simples
da maneira mais complicada